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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

100 características dos brasileiros

Uma visão de um alemão que está vivendo em Curitiba


O texto original foi escrito por Manuel Schneider, um alemão que vive no Brasil. Eu apenas traduzi, pois achei interessante observarmos a visão que estrangeiros, como Schneider, possuem de nós, brasileiros. O texto original (em inglês) está aqui, no blog de Schneider: Ele também colocou alguns links (em inglês) para justificar algumas de suas afirmações com dados de fontes secundárias, acho desnecessário colocá-los. O importante é o que ele escreveu, mas podem ver os links no texto dele se quiserem. Sem mais delongas, o texto: “O que eu sei sobre os brasileiros 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Murros na anatomia

Nada é tão sobrevivente no mundo quanto as inconveniências ditas pelo homem. Depois que morrem, eles deixam um legado de maus costumes aos seus semelhantes e assim muitas bobagens pairam eternamente na Terra. Essa herança maldita, perigosa, destruidora e que se aproxima da unanimidade, merece ser esmurrada até sangrar e gritar agonizante a própria morte. E se essas asneiras que residem em várias mentes não desfalecerem espancadas, elas devem ter abertas para si as portas do esquecimento e da indiferença.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A vida recapitulada nas páginas de papel

Se você tivesse que colocar no papel um resumo da sua vida até agora, como seria? Se fosse uma fábula, o que haveria entre o “Era uma vez” e o desfecho? Seria um final feliz? E se, em vez de um livro, a vida fosse resumida em um único capítulo? 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Comércio da dignidade

O substantivo começado em T que faz os homens e as mulheres amarem a sexta-feira e repudiarem a pobre coitada da segunda

É tempo de aumentar o número de ditados conhecidos pelos homens, ou refrescar a memória dos mais sabidos com palavras que eles já conhecem. Um dito popularesco é a base desses pensamentos, e outros vêm de brinde. Sem mais suspense, eis a libertação dos dizeres que são o eixo dessa narrativa. Não é comum aos autores entregar tudo no primeiro parágrafo, mas no auge do bom humor de um ranzinza, tudo é possível, então aí está: o trabalho dignifica o homem!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Balas e batalhas perdidas

Faz pouco mais de um mês desde que Adam Lanza marchou para a escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, e massacrou 20 crianças e seis adultos antes de tirar a própria vida. Desde então, um massivo debate sobre um rígido controle de armas se alastrou sobre o país, e uma espécie de terror dominou outras famílias com a real possibilidade de perderem os filhos nas mãos de inúmeros psicopatas que habitam a America do Norte. Agora eles são vítimas do próprio mecanismo que criaram.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Sessão nostalgia

Todos tivemos uma infância e, às vezes, esquecemos de valorizar e de relembrar por conta dos contratempos atuais. Mas ela sempre teve parte fundamental para que nós sejamos quem somos hoje. O meu primeiro texto de 2013 é apenas um retrospecto das muitas saudades que a infância deixou na memória.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobrevivência apocalíptica

Início de dezembro e as aflições para comemorar as festas de fim de ano já começaram. Recebi um e-mail para confirmar minha presença em um evento marcado para o dia 21, na bela casa de um grande amigo em São Paulo. A data se confirma neste dia justamente para coincidir com o fim do calendário maia, pois caso o mundo acabe, já estaremos com o nosso presente natalino garantido. Um dos participantes sugeriu que os presentes do “amigo secreto” deveriam seguir conforme a situação; isto é, acessórios de sobrevivência apocalíptica. Máscara de gás, botas impermeáveis, comida enlatada, todo o tipo de item necessário para sobreviver sob um céu sangrento, vinda de tsunamis e grandes tempestades.

Gostei da ideia, apesar de saber que com coisa séria não se brinca. Confirmei minha presença e confesso minha ansiedade em rever antigos e bons amigos.

Nessa esfera apocalíptica de festas e lamentos - em escala muito maior -, alguns grupos já se refugiaram em montanhas e lugares afastados da civilização; conforme rege a crença, as grandes cidades serão as primeiras atingidas pela fúria. No Brasil, na Chapada dos Veadeiros, há uma comunidade isolada seguindo as ordens de um guru. O lugar escolhido, acreditam os membros, está a salvo das desgraças advindas do fim do mundo. Penso o contrário: será o local da queda do primeiro meteoro.

A própria NASA, oráculo da ciência, devido a inúmeros emails recebidos, divulgou um comunicado negando qualquer probabilidade científica de apocalipse. Há rumores de jovens pretendentes ao suicídio devido ao bombardeamento de notícias sobre o caso. Uma família teria sugerido matar o próprio filho para poupá-lo das catástrofes vindouras. Tudo isso determinado por um ciclo que se acabaria, o famoso-aclamado-reverenciado calendário maia. Outro remorso é devido a documentos da antiga civilização Suméria, que povoou a Mesopotâmia, preverem um choque de um exoplaneta com a terra. Imensas esferas numa espécie de bilhar planetário, muito bem retratada pelo diretor Lars Von Trier no filme “Melancolia”. Para desmistificar, a NASA sugeriu que o Calendário Maia não é mais do que um calendário de cozinha: ao acabar, basta pendurar outro na parede.

Nesta seara, percebemos a incrível vocação humana para se render ao misticismo e esoterismo. Os líderes religiosos sabem muito bem trabalhar com esse elemento. Podemos entender melhor essas manifestações nos cultos evangélicos de expulsão do demônio – o famoso “sai, capeta”. Ou na insaciável curiosidade dos freqüentadores de cartomantes que prevêem o futuro. Marcio Tomas Bastos sabe bem o que é isso, o ex-ministro da Justiça cobrou 4 milhões de reais para defender uma mulher que assassinou o marido seguindo orientações astrológicas de uma cartomante.

No âmbito internacional, os americanos já haviam criado o pensamento do Destino Manifesto como propósito para assassinar milhares de índios nativos no século XIX. Na década de 70, a seita do reverendo Jim Jones fez sucesso. O líder espiritual fundador da seita “Templo do Povo”, induziu 918 pessoas a se suicidarem por envenenamento na comunidade isolada de Jonestown. Há também a turma do Charles Manson, psicopata que ordenava seus discípulos cometer brutais assassinatos – a atriz Sharon Tate, uma das vítimas, levou 16 facadas na barriga em que carregava um filho de oito meses. Manson mandou seus seguidores, quando capturados e presos, a participarem do julgamento engatinhando no chão como bebês, tamanho domínio mental que ele exercia sobre seus seguidores nefastos.

Espero que os membros dessas comunidades isoladas não sigam ordens parecidas como as de Jim Jones e Charles Manson no momento que se decepcionarem e tiverem que voltar ao trabalho para sobreviver.

Portanto, prefiro a fala de Jesus Cristo registrada no evangelho de Marcos quando indagado sobre o fim dos tempos: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai”.

Vou a São Paulo garantir meu acessório de sobrevivência apocalíptica, ciente de que nada adianta fugir para as montanhas, se suicidar, ler livros e assistir documentários no History e Discovery sobre o assunto – aliás, estão fazendo montanhas de dinheiro com essas produções. O mundo vai continuar a girar. É necessário compreender: há muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia (teologia), e, melhor ainda, como disse o sábio Rei Salomão, “não há nada de novo debaixo do sol”.
Ricardo Toledo

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Outro Lado da Ceia de Natal

“Hoje cheguei junto a meus irmãos a um sitio bem bacana aqui na região da Grande Florianópolis. O lugar é belíssimo, o espaço é bastante extenso, a variedade de animais é bastante grande, porém há uma história aqui me preocupando bastante.

Há cerca de um ano, e nos anos anteriores, sempre nessa época famílias como a minha chegam neste mesmo local. 

Dizem que por um tempo tudo são flores e rosas, corremos de um lado para o outro, nos fartamos de vários alimentos e convivemos com os outros, que são bastante diferentes. O tempo vai passando e nós vamos ficando cada vez mais gordos, até que um dia, os donos do sítio vem até nós, para nos cobrar pela estadia e pelos alimentos, mas eles não querem trabalho ou dinheiro, eles correm para nos pegar um a um e nos assassinam, sim meus amigos, ASSASSINATO, este crime horripilante e vocês sabem por quê? Para de uma forma desumana, nos transformar em diferentes tipos de comida e nos servirem em suas mesas, na ceia de natal.

Há boatos que até existem certos humanos que não partilham destes atos, seriam os tais Vegans e Vegetarianos, mas enfim, eu e meus familiares estamos planejando a fuga, torçam por nós, esperamos obter sucesso, mas caso isso não ocorra, a menos tenha bom senso de comemorar e aproveitar as festas com suas famílias e amigos, para que a morte de vários familiares meus, tenha valido a pena.”

Peru Gluglu

Até 2013

Deixo nesta última coluna de 2012 para o estopim, uma dica de receita para os aventureiros das cozinhas. Em minha cozinha avistei um abacaxi e unindo o útil ao agradável:

Peru Assado com Abacaxi Temperado

Ingredientes
Meia cebola ralada
Meia colher de adoçante culinário 
2 dentes de alho espremidos
2 colheres (sopa) de shoyu light 
1 colher (chá) de páprica picante
1 colher (chá) de alecrim picado
1 colher (sopa) de cheiro-verde picado
Sal a gosto
1 abacaxi médio em fatias 
1 peito de peru temperado

Modo de Preparo
Misture a cebola, o adoçante, o alho, o shoyu, a páprica picante, o alecrim, o cheiro-verde e o sal. Besunte as fatias de abacaxi. Reserve. Coloque em uma assadeira o peito de peru, cubra com papel alumínio e leve ao forno preaquecido em temperatura média alta por 50 minutos. Retire o alumínio e coloque as fatias de abacaxi temperado ao redor do peito de peru. Volte para o forno e deixe até que o termômetro pule. Retire a redinha que envolve o peru, fatie e sirva com o abacaxi assado.

Rendimento: 8 porções

Boas festas leitores e até o ano que vem quem sabe, afinal 21-12-2012 está logo aí.

Leonardo Santos

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A popularidade do humor politicamente incorreto

Image and video hosting by TinyPicA moral e os bons costumes são questões prezadas pela sociedade, mas o humor utiliza da deturpação desse modelo para atingir, criticar e, por vezes, chocar, essa mesma sociedade. Apesar de tudo, muita gente se diverte com isso, sabendo distinguir a realidade da ficção humorística. 


Uma vez um amigo meu disse que tinha uma piada para contar. Ele perguntou para mim e para as outras pessoas que estavam ao redor: “vocês querem ver como um leproso prepara carne moída?” e logo em seguida esfregou as duas palmas das mãos uma contra a outra. As pessoas, já meio alteradas por conta do álcool, deram muita risada. Não que a piada fosse extraordinária, mas era de fácil compreensão. Na hora, ninguém questionou se era uma brincadeira maldosa, que tem pessoas que sofrem muito por conta da lepra. É preciso saber que o humor negro não foi feito para levar com seriedade ou com maldade, é apenas uma forma de achar graça na desgraça, o que é extremamente necessário para se levar uma vida mais alegre e descontraída. 

Imagine um mundo no qual o humor politicamente incorreto fosse proibido. Só haveria um humor infantil ou com piadas sutis (mais sutis que as piadas de humor inglês, como Monty Phyton, que tem algumas tiradas satíricas e críticas). 

Aliás, um dos grandes trunfos do humor é a crítica social, que é muito relevante para a formação das pessoas. O humor crítico por si só já é politicamente incorreto, pois vai contra as vertentes do conformismo social, portanto o politicamente incorreto é necessário na vida das pessoas para que elas saibam olhar o mundo com uma visão crítica e inconformada com as irregularidades. 

O humor politicamente incorreto foi aos poucos atingindo novos patamares. Os desenhos animados, que continham uma violência leve e divertida, como Tom E Jerry, Looney Tunes, agora possuem linguagem mais adulta, temas mais controversos e mais violência explícita, como South Park, Simpsons, Uma Família da Pesada, Beavis E Butt-Head. O humor ácido do Stand Up Comedy foi ganhando mais espaço. Filmes mais violentos e com humor negro estão mais populares do que nunca, como as películas de Tarantino e Robert Rodriguez. Mas mesmo agora, com mais espaço, o humor negro ou politicamente incorreto sempre esteve presente. O que seria de Woody Allen sem suas sacadas geniais? Eddie Murphy não tinha papas na língua em seus shows de stand up que, aliás, foi ganhando muita popularidade pelas piadas inescrupulosas que fazem o público ir ao delírio. Laranja Mecânica sempre foi controverso e isso causou alvoroço e sucesso, tanto do livro quando do filme. Lolita falava de um amor de um homem bem mais velho com uma adolescente, se a personagem fosse uma adulta, a obra não seria tão marcante. Por isso não podemos ser hipócritas e devemos abraçar o politicamente incorreto, que faz parte do senso crítico e criativo do ser humano. Claro que devemos distinguir o certo do errado na nossa vida pessoal, mas esse lado mais renegado deve sempre estar presente para que nós não sejamos tão inocentes e para que nós comecemos a observar a vida de uma forma diferente e com mais astúcia. 

A “maldade”, tão criticada nos julgamentos de que não é politicamente correto, está, invariavelmente, em todos nós, e não há “maldade” nenhuma nisso, pois é natural. A “maldade” está nos olhos de quem vê.


Quadro de Fernando Caruso no programa Estranhamente

Felipe Kowalski

domingo, 18 de novembro de 2012

Facebook ou livro

“Livro” vem do verbo “livrar” - tendo como principal objetivo livrar-te da ignorância. Entrei no Facebook, mais uma vez, e me deparei com essa frase provocativa. Certa afirmação me levou a perguntar: O que seria do homem não fosse o livro?

A obra O terceiro Chipanzé, de Jared Diamond, trata da brutal semelhança do homem e do macaco. Sua teoria é de que a fala foi fundamental para o desenvolvimento da espécie Homo Sapiens. A partir dela nos tornamos capazes de compreender uns aos outros e criamos uma incrível habilidade de transmitir conhecimento. Caso contrário, seríamos apenas mais uma raça primata, e, possivelmente, pelas características que apresentamos, a menos favorecida de todas. Enfim, nós falamos, transmitimos o conhecimento adquirido através dessa fala, mas não somos muito mais do que macacos.

O que seria do mundo sem os livros? Seria semelhante a uma humanidade sem a linguagem falada? Planeta dos Macacos? E se existissem apenas os de Autoajuda?

Caso Hitler tivesse queimado todos os livros – e espero que o Führer tenha incendiado alguns de Autoajuda-, com a contribuição dos professores grevistas APEOESP, que protagonizaram cenas grotescas ao atirar livros às chamas em praça pública, saberíamos a resposta.

“Onde se queimam livros, acabarão por se queimar pessoas” profetizou Heine, poeta alemão de origem judaica, cem anos antes do início do terceiro Reich. Já disse aqui, em outro artigo, que numa vida passada fui enforcado. Nessa não pretendo ser queimado. Podem sim, todavia, queimar-me quando eu estiver morto. O filósofo Mario Sergio Cortella, ex-secretário da educação de São Paulo, tentou aplicar uma ação de incentivo à queima de corpos (cremação) com o apoio da Caixa Econômica Federal. O slogan publicitário era: “Vem pra caixinha você também”. Concordo com Cortella e com Javé quando expulsou Adão do paraíso: “Do pó viestes, ao pó retornarás”, diz o capítulo do Gênesis. Infelizmente, Luíza Erundina, prefeita na época, não concordou com Cortella, nem com Javé, e vetou a ação.

Volto ao assunto. E se não fossem os livros? Já que livro está fora de moda, imaginemos então um mundo apenas com... Facebook. Neste momento, caro leitor, você está prestes a desistir de ler meu texto. A palavra Facebook causa sensação de desconforto e hipnose. Imagine quantas coisas há de novo por lá, não?

Espere aí, aguente firme!

Mundo só com Facebook: com um sistema de informação em linha de tempo do qual não há a mínima chance de se absorver coisa alguma de forma profunda. Lemos o anúncio e, de forma inerente ao ser humano, pois somos preguiçosos por natureza, nos satisfazemos com a informação prévia – aquela de, no máximo, 4 ou 5 linhas. As imagens passam apressadas e os links das notícias são inúteis, basta a primeira olhada e pensamos que já sabemos sobre o assunto. Passados 5 minutos, nos esquecemos. O resultado: Cérebros cada vez menos capazes de absorver informação, concluir resultados e discutir ideias. Idiocracia completa. Um mundo de Big Brothers, Parises Hiltons e Ipads por todos os lados.

Graças ao percurso da história e tecnologia precária, não existiam computadores e Newton não tinha Facebook. Não sairia debaixo da árvore nem se uma melancia tivesse caído em sua cabeça.
No mundo só com Facebook não há reflexão. Viveríamos a consequência de uma existência em um ambiente planetário de globalização, de super comunicação, sem termos nada pra falar. Numa troca impossível de ser controlada, que já afeta a todos deliberadamente, de quem dela participa, e de quem se entrega em uma teia alienante sem linha de chegada. “Mostrar histórias mais antigas”, diz a linha do tempo de Zuckerberg.

O pior é que afeta quem anda consciente. É um surto humano, da fragmentação da alma, como os fragmentos da notícia lida e nunca entendida.

Fragmentos de ideia como a que tive para escrever este texto quando acessei o Facebook e deixei de ler o meu livro.
Ricardo Toledo

domingo, 11 de novembro de 2012

Conversa de bar

Fazia frio no bar de seu Menegal e os relógios davam 14 horas. Carlos Afânio, queixo enfiado no peito no esforço de proteger-se do vento cruel, entrou depressa pela porta exclamando a felicidade por estar de volta à ilha que tanto saudava: - Cá estou novamente, meus camaradas. Fez-se silêncio investigativo na mesa ocupada pelos antigos amigos, os olhares se fixaram na direção de Afânio que, abaixando seus braços erguidos de contentamento, desconfiou se sua presença não era mais bem-vinda no ambiente.

A lividez de Afânio, porém, deu lugar a um largo e corado sorriso, entre risos e palavras de carinho quebrou-se o silêncio. Todos ao mesmo tempo manifestaram a satisfação de rever o antigo amigo e líder da turma. Uma cadeira já estava à sua espera quando terminou de cumprimentar um a um dos colegas.

Afânio havia muito partido para uma região árida e desconhecida. Terra dos engravatados e poderosos de colarinho branco, a capital Brasília não despertava muito interesse dos confrades de bar. A rotina tomara conta dos fregueses da espelunca e as calorosas discussões não iam além dos resultados das competições de futebol. Entretanto, Afânio passara os últimos 4 anos no altivo distrito federal e a curiosidade inquietou a roda formada em volta da mesa.

Foi Dudu Esperança, sambista de risadas prolongadas, feliz como a estigma do povo brasileiro, o primeiro a perguntar: - Nos conte como foi na capital, Afânio, muito trabalho na terra da oportunidade? Sentindo um visível desconforto, Afânio virou de uma só vez um copo de cachaça, levantou os olhos cabisbaixos e respondeu titubeando: - Trabalhar, trabalhei, é, trabalhei, mas deixa pra lá, vamos falar de outra coisa cumpadres.

-Mas você não trabalhou com seu cunhado, o deputado Venceslau Figueira? Perguntou Miro Letardo, que pouco falava mas as vezes surpreendia. – Eu vi ele na TV, me parece que era alguma coisa sobre desvio de dinheiro, propina, sei lá, essas coisas aí de corrupto. Completou Letardo.

Afânio serviu outro copo de cachaça para disfarçar o nervosismo, enquanto os olhares dos colegas brilhavam de curiosidade. Levou o trago à boca e engoliu com dificuldade, o líquido fluiu queimando sua garganta. Tudo que queria evitar era o assunto Figueira: - Venceslau é um homem muito afável - Retomou o discurso. - É também de muito respeito, gosta de ser chamado de vossa excelência, de doutor, é apreciador de vinhos caros. Uma pessoa tão especial que gosta de presentear os parentes. Fazer o bem mesmo, sabem. Então, o emprego que me arrumou pagava um alto salário e eu fazia tudo em casa, só aparecia no gabinete pra bater o cartão, mas tudo muito certo, correto. Concluiu Afânio.

Seu Menegal, dono do bar e de um grosso bigode preto, enxugava alguns copos de cerveja, se intrometeu na conversa: - Mas tu ficavas em casa resolvendo tudo sozinho? - De maneira nenhuma. Replicou Afânio. - Minha mulher me ajudou, ela também é funcionária comissionada de Venceslau. Ele mesmo aparecia todo dia pra ver como andava o destino das finanças.

- Finanças? Todos da mesa se perguntaram ao mesmo tempo. Afânio, percebendo a emboscada que havia se colocado, tratou logo de se levantar. – Desculpem, camaradas, mas tenho que ir. Girou sobre os pés e tomou o caminho da porta. – E agora, o que vai fazer da vida? Ouviu a pergunta ao abrir a porta. – Consegui transferência, vou trabalhar na Assembleia Legislativa daqui, mas por enquanto me mandaram esperar, estou com um probleminha médico. Saiu sem dizer até logo.

Dudu da Esperança olhou atônito para os colegas, sua face refletia uma indignação desconhecida por ele mesmo. Sua boca estremecia e seu coração lhe apertava o peito. Sem conseguir se controlar, surpreso pela súbita partida de Afânio, perguntou aos amigos: - Será que ele vai ao jogo amanhã?

Ricardo Toledo

sábado, 10 de novembro de 2012

O andarilho da Rua Felipe Schmidt

Seu Arlindo Freitas, mais conhecido como “Sol”, produz instrumentos em bambu entre idas e vindas a Florianópolis

Todos os dias, nas ruas da antiga Desterro - agora a pomposa Florianópolis -, vivem diversos artistas de rua. Sem nomes, sem identidade ou lugar para aonde ir, estes personagens do cotidiano da cidade enfeitam nossas vistas. Sim, enfeitam mesmo. Na praça XV de Novembro o sussurrar da flauta de bambu diverge do batuque dos índios e mais ainda dos uruguaios, que permeiam a longa Felipe Schimidt.

Um chapéu preto, várias ideias na cabeça e um talento com as mãos. Arlindo Freitas, mais conhecido como Sol, conquista fãs por onde passa. Com seus impublicáveis anos de idade, Sol produz instrumentos musicais em bambu e também os toca. Filho de pais modestos e uma família com mais de cinco irmãos, o músico leva consigo apenas suas fabricações e o que ganha delas.
A figura atípica de seu Arlindo chama a atenção do público.
Um dos favoritos é o sonfonete, que traz sons ideofônicos (vibrações no interior do corpo do próprio instrumento). O saxofone de bambu é o mais conhecido pelos fãs e o mais querido. Para concretizar a ideia, seu Arlindo usou uma cuia de chimarrão e bambus esterilizados contra insetos.

O começo de um talento

A preferência por música apareceu desde criança, quando montava e desmontava violas. Sua mãe – preferiu não dizer o nome -, não aceitava a ideia e o batia todas as vezes que via mexer no instrumento. Revoltado com o tratamento, saíra de casa com 12 anos de idade e poucas perspectivas. Trilhou o caminho autodidata e durante as décadas de 70 e 80, dedicou-se a arte de construir instrumentos musicais em bambu. A família raramente possui notícias dele, mas quando perguntado sobre o estilo de vida, “Sol” é enfático: “Sempre estou no sufoco, mas a vida é assim. Se a gente não tiver sufoco, não tiver que batalhar para viver, não tem graça.”

Para seu Arlindo o manuseio do produto é fácil. O artista, que se intitula quase como um nômade, têm o próprio local de trabalho. Mesmo não revelando onde fica em exato, afirma que faz os produtos por encomenda. O tempo de entrega faria de acordo com o pedido do cliente, mas a qualidade é garantia: “Nunca estudei, sou autodidata. Se você me der um instrumento na mão, em 15 minutos eu domino ele.”

A fama de “Sol” ultrapassa fronteiras. Há 8 anos chegou na capital e costuma ficar na Rua Felipe Schmidt, no centro da cidade. A ideia de fazer materiais musicais em bambu veio quando estava em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O resultado foi tão positivo que vários fãs divulgam seu trabalho em mídias sociais, como no Youtube.

Em Florianópolis, o número de artistas - não só os que tocam instrumentos, mas que procuram mercado para a arte -, aumentou nos últimos 10 anos. Dados do IBGE confirmam: no Brasil há cerca de 8,5 milhões de artesãos.
Já estive em diversos países da América Central e do Sul. Estou sempre conhecendo os lugares e fazendo novas amizades. Aqui em Florianópolis fico na casa de amigos e durante o dia trabalho nas ruas.
O lado dos artistas de rua

Daniel Gonçalvez, 27 anos, veio de São Paulo para Santa Catarina à procura de novas oportunidades de emprego e viu na pintura uma forma de mercado. Apesar do bom negócio, o artista afirma que a ideia é pouco valorizada.

“Em outros lugares, em países de primeiro mundo, a arte é valorizada como produto de mercado, como um investimento. Aqui no Brasil não tem muito essa característica.” Afirma Daniel.
Daniel começou a desenhar ainda criança. Hoje é conhecido como um especialista em pintura.
Daniel Gonçalvez trabalha em parceria com Marcos Pereira, mais conhecido como Mark. Os dois amigos se conheceram em São Paulo, quando o mineiro Marcos decidiu aprender pintura. Daniel foi seu professor e desde lá a parceria continuou. Os dois hoje vivem da arte, nas ruas do centro de Florianópolis. Recentemente, Mark conseguiu fechar negócio com o novo restaurante da Rua Álvaro de Carvalho. Agora os clientes podem pagar no cartão de débito e crédito, sendo o valor repassado para o artista.

Perambulando pelas ruas é fácil achar outros chapéus pretos – não como o de seu Arlindo, com 2.000 anos -, chapéus humildes e estrangeiros. Todos ao aguardo de um agrado para sustentar suas estadias e diárias em albergues.
Artistas estrangeiros fazem música para ganhar o pão de cada dia.
Para seu Arlindo o artista de rua deve ser considerado e respeitado. Apesar de trabalhar informalmente na rua, “Sol” possui contato e email para encomendas. Perguntado quantos anos possuía, no encerrar da conversa, junto de sua tutuca (apelido dado para um dos instrumentos feitos em bambu) o homem foi direto: “Dois mil anos, sou como o sol. Não tenho chão, sou do mundo. Eu busco respostas. O futuro não me dá respostas. E se não tem futuro, não existe. Hoje é o futuro, eu faço o agora.”

Crédito das fotos: Rafaela Bernardino
Rafaela Bernardino

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A busca pelo inexistente

As pessoas costumam sempre idealizar algo que elas necessitam. Muitas vezes, essas coisas estão fora do alcance, por serem tidas como perfeitas. A realidade não é e nunca será perfeita, o que acaba trazendo decepções infundadas por idealizações impossíveis. 

A busca pela perfeição é algo mais comum do que se imagina. As pessoas perfeccionistas querem atingir um padrão de vida inalcançável. A perfeição é algo criado pelas pessoas, mas que não condiz com a realidade da vida. Muitas pessoas buscam o que veem na televisão, que com seus comerciais elaborados, novelas que trazem realidades distintas e famosos com vidas luxuosas, acaba sendo uma grande culpada de plantar sonhos impossíveis na cabeça de meros mortais. 

Em vez de querer viver a própria vida, as pessoas acabam querendo ter a vida de outras pessoas. Ter um corpo perfeito, uma aparência física irreparável, casas e carros luxuosos. Nenhuma vida é perfeita, nem mesmo a de pessoas famosas e de prestígio social. A vida particular das pessoas é repleta de insatisfações e imperfeições, o que é perfeitamente natural. Somos feitos de carne e osso, temos dias bons e ruins. Sempre queremos mais e nunca nos satisfazemos por completo. 

O problema é quando as pessoas teimam em buscar uma vida que não é delas e que não é perfeita como elas pensam. A sociedade é feita de aparências. Muitos famosos, como James Dean e Marylin Monroe, eram tidos como exemplos de perfeição física, com vidas incríveis, talentos infinitos e com uma vida pessoal plena. Mas eles viveram vidas desregradas, morreram jovens e bonitos. É comum pré-julgar que eles eram seres ideais, mas eles eram apenas humanos, como eu e você. Eles também tinham incertezas, inseguranças, medos e sonhos não-realizados. 

As pessoas precisam parar de buscar viver um conto de fadas. A realidade é dura, por muitas vezes. Vamos todos receber algumas pancadas, mas a vida é assim. Temos que conviver com nossos demônios e buscar coisas alcançáveis. Não é preciso se conformar com o que tem, mas é mais saudável quando temos noção de que devemos buscar realizações dentro de nossa possibilidade. Não dá para nascer como uma outra pessoa, somos quem podemos ser. E essa é a vida que deveremos aproveitar. A busca por pensamentos e personalidade própria é necessária para que possamos ser os melhores dentro de nossa realidade. Que graça teria se a vida fosse perfeita, tudo certinho e cheio de alegria? A vida é feita de emoções e de surpresas, devemos nos deixar sermos surpreendidos, por coisas boas e ruins. C’est la vie.

Felipe Kowalski

domingo, 4 de novembro de 2012

Takenaka tá com nada

Um dos melhores alunos da escola, Takenaka usava um óculos fundo de garrafa, tinha um estilo rechonchudo e sempre sentava na carteira da primeira fileira, aquela de cara com o professor. Estudante exemplar, suas notas eram as melhoras do colégio. Física, química e matemática eram diversão para o japa.

Num dos simulados de vestibular da USP, prova aplicada apenas para os alunos do colegial, Takenaka alcançou pontuação entre os 20 primeiros para cursar engenharia. O cara era gênio. Jeito bonachão, educado; alvo preferido das bolinhas de papel que jogavam nas cabeças quando o professor virava para o quadro negro ao dar explicações.

Sua conduta era elogiada pelos diretores e nunca houvera uma reclamação sobre seu comportamento. Sem dúvida os demais alunos tinham em quem se espelhar - pensavam os professores. A vida de Takenaka, no entanto, apesar de tantas qualidades, escondia algumas sujeiras por debaixo do tapete. E coube a mim testemunhar a sujeira revelada.

Numa noite após chutar algumas canelas no futebol, estava reunido com alguns amigos perto da quadra de esportes, quando Takenaka apareceu. Surgira do nada. Caminhou em nossa direção, despretensioso. Achei estranho, nunca o vira fora da escola; meus amigos mal sabiam da sua existência. Eu imaginava que ele passava os dias resolvendo cálculos matemáticos, decorando a tabela periódica, mergulhado nas pilhas de livros.

Nesta noite, Takenaka estava com o olhar perdido e profundo. A pupila dilatada e desconexa. Difícil descrever a angustia que transmitia sua face. Quando bem perto de nós, dirigiu a palavra sem qualquer tipo de cerimônia: - Oi, vocês querem fumar crack? Por um instante não compreendemos. Nossas cabeças giravam sobre os pescoços, encarando uns aos outros, à procura de uma resposta. - Você tá de brincadeira, palhaço? Respondeu um dos meus colegas. – Cai fora já daqui. - Não, pessoal, só vim perguntar, de boa. Replicou o grande CDF. O Fitamos com tanto desprezo que ele se sentiu pressionado. Virou as costas e caminhou alguns metros até um carro onde esperavam por ele dois de seus amigos.

Quando seu carro passou por nós, Takenaka estava sentado no banco de trás. Vagava o olhar para o infinito, com um leve sorriso no rosto. Não entendemos o que se passou: se ele era viciado, traficante, ou se procurava alguma forma de aceitação. Talvez começou a usar drogas para se “enturmar” e romper toda a pressão que vivera na sua vida de estudante isolado.

Naquela época, há 12 anos, o crack era uma epidemia em estado inicial de destruição. Ficamos chocados com a revelação. Nos dias de hoje, acostumados com o bombardeamento de informações e anestesiados diariamente pelas más notícias, o problema se tornou de fácil absorção pela sociedade. Não há mais espanto. Vemos pessoas que eram saudáveis, inteligentes e cheias de vida, entregues ao cotidiano e rotina das drogas pesadas.

Assustou-me o caso do advogado do ex-goleiro Bruno, Érico Quaresma, que declarou que depois da bomba atômica de Hiroshima, o crack era a substância mais avassaladora já criada. Isso, logo após ter sido flagrado em vídeo fumando a droga entre traficantes e viciados, perto de uma favela de Belo Horizonte, no auge do escândalo do assassinato de Eliza Samudio. Não sei sobre o fim de Takenaka. Se persistiu no crack, é provável que a vida da grande promessa escolar tenha escorrido ralo abaixo. E eu, apesar de nunca estar entre os melhores alunos, agradeço aos meus colegas que sempre me influenciaram a sentar no fundão da sala de aula.

Ricardo Toledo

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Entre uma causa imediata e laços consistentes
   O Entusiasta
      Luciano Bitencourt
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- Sobre o que escrevo?

- Sobre a Unisul, escreva sobre a Unisul!

- Tudo bem!

Respondi tão rapidamente que mal me dei conta do desafio. Os caras estão sempre procurando deflagrar algum movimento; isso nem sempre é coisa que valha os anéis e meus dedos andam lisos ultimamente. É embriagante essa permanência em trânsito a que nos submetemos; há coisas em abundância a dizer e nada tão significativo que justifique a si mesmo.

Preciso de conextualização. O Capenga era uma publicação impressa irreverente tocada por estudantes da Unisul no início dos anos 2000. Escrachava as situações vividas na universidade com uma inteligência ingênua, típica de quem demonstra convicções em amadurecimento. Cresceu com o curso de Comunicação Social da Pedra Branca e foi o estopim de muitas ações que valorizaram a formação nessa área promovida pela Unisul.

Eram outros tempos. Parece que algumas gerações se foram. Não é exagero! Estamos falando de cerca de 10 anos e há uma evidente cesura (eu disse cesura: corte, fissura) entre os perfis daquela época e os de hoje. Sem juízos moralistas de valor, nem melhor nem pior. Era outra Unisul. Só o curso de Comunicação Social (à época com as habilitações de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, e Cinema e Vídeo) reunia quatro dígitos de estudantes em dois turnos.

Alguém chegou a buscar comparações entre o Capenga e o Estopim. Talvez como forma de amarrar as temporalidades que os separam com algum fio que sustente a crença de continuidade no percurso do que tentamos construir na universidade. Um fio saudosista capaz de dar esperança ao prestígio que a Comunicação Social tinha e merece recuperar.

- Não há como comparar!

Tratei logo de expressar minha percepção porque não consigo ver semelhanças em organicidades tão díspares. O Estopim é multimidiático, errático, traz o que faltava 10 anos atrás e carece do que, julgo, era a verve da trupe ancestral. São propriedades (que fique claro!) de cada época. Os estopins têm mais energia, parecem mais criativos, são mais ávidos por realizações. Mas se enxarcam de superlativos, são ensimesmados; faltam-lhes as utopias que alicerçam os laços afetivos mais densos de um projeto coletivo.

Não há como comparar, é bom repetir. Porque também não há como comparar os momentos que os separam. O Capenga e o Estopim são boas referências para uma analogia quanto à organização Unisul. Em 2013 põe-se em movimento uma outra perspectiva de estrutura curricular, formatada para aproximar a universidade das espectativas sociais. Claro, há nisso uma tentativa de sedimentar recursos de sustentabilidade, também econômico-financeiros. E é aí que a analogia se materializa.

A visão tecnocrática de projeto (seja administrativo, acadêmico ou pedagógico) entende o termo sustentabilidade pelo viés da estrutura, pelo viés do que dá tangibilidade aos resultados esperados. É fato, contudo, que isso não é suficiente. Sem utopias que fortaleçam laços de convivência talvez não haja permanência para uma proposta de educação em que a formação se inscreve em múltiplas dimensões.

Objeto de desejo, a educação superior representa uma oportunidade de ascenção social ainda para poucos. No Brasil, apenas 17% das pessoas com idade entre 18 e 24 anos frequentam espaços de nível superior. Há uma enorme diferença salarial em favor dos que dispõem de diploma e um gargalo nos processos seletivos para ingresso no ensino superior. Além disso, o índice de evasão entre os poucos que conseguem agarrar a oportunidade é bastante significativo. Segregação socioeconômica e segregação intelectual ainda permeiam a educação superior brasileira.

Como os estopins, a Unisul busca identidade nesse ambiente de permanente transitoriedade; algo difícil de definir nos dias atuais e de conseguir apenas com projetos. É como espaço de permanente circulação que o Projeto Pedagógico Institucional descreve a universidade que se quer construir. Isso pede um portfólio diversificado de oferta com foco no conhecimento resultante desta nova organização; com foco na educação como patrimônio coletivo, ainda que financiada com recursos privados e com bolsas educacionais.

Em 2013 a Unisul deflagra as ações que buscam dar tangibilidade às concepções de universidade que cultua. O Estopim faz parte desse movimento. Enquanto produto é mais um entre muitos que povoam a vida universitária; o que na verdade o faz pertencer ao mesmo movimento é o desafio de tornar-se orgânico, fruto de laços consistentes de afetividade, para além de desejos pessoais para consumo rápido.


Luciano Bitencourt

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A solidão na juventude escondida pelo comodismo social

A solidão é um dos males que mais assola a sociedade, inclusive os jovens são cada vez mais solitários. Mas numa sociedade que preza pelas aparências, essa questão acaba sendo escondida e varrida para debaixo do tapete. 

Uma sociedade individualista como a nossa prega que as pessoas devem ser superiores às outras no âmbito profissional e pessoal. A concorrência no mercado de trabalho é um fator determinante para que a confiança nos outros seja algo cada vez menos existente. A comunicação, por muitas vezes, é apenas por interesses e ocorre através do computador ou do celular. Ninguém tem tempo para mais nada, por conta do imediatismo e da correria do dia-a-dia. É muito raro encontrar pessoas que se conhecem de verdade. 

Os tempos mudaram, vejo isso até pelos exemplos daqui de casa. O meu pai vive com a mesma turma de amigos há vários anos, são inseparáveis. Já eu não consigo manter relações constantes e íntimas com praticamente ninguém. As amizades de infância ficaram distantes e cada um tomou um rumo diferente na vida. 

Com as relações humanas se tornando mais inconstantes, as pessoas vão em busca de relações cada vez mais frias e menos sólidas. As noites saem em busca de companhia, mas nada que seja muito duradouro. Relações de uma ou poucas noites, sem amor, sem amizade, sem vínculos. 

Mas a sociedade vive muito de aparências, o que faz com que as pessoas finjam muito estar adequadas e se sentindo bem. Já vivenciei várias vezes comentários do tipo: “por que as pessoas em volta estão bem e eu não?” 

Se questionamentos desse tipo são recorrentes e feitos por diversas pessoas, pode-se concluir logicamente que as “pessoas em volta” não estão tão bem assim. 

A busca recorrente por relacionamentos e por uma vida social geralmente serve apenas para omitir a natureza solitária desses jovens desesperados. A natureza humana pede por relações e convívio, mas a sociedade preza pelo individualismo e pelas qualificações pessoais. Como sair disso? 

A reflexão é válida, pois o futuro dos jovens pode ser comprometido por conta do isolamento social e da solidão. Vi recentemente um documentário feito pela sessão Extra do site globo.com que mostra a vida de pessoas solitárias, que viveram “muita coisa” como a juventude de agora e acabaram em situações bem complicadas. Inclusive mostra um homem que frequenta diversos grupos de ajuda, até mesmo sem necessidade (como grupos de tratamento de câncer ou o AA). É uma situação semelhante à mostrada no filme “Clube da Luta”, mas nesse caso, não é fictício.

A introdução da matéria que mostra essas histórias é assim: “O mundo tem 7 bilhões de habitantes. Desses, 190.732.694 vivem no Brasil - um país que tem 79.245.740 pessoas conectadas à internet. Dentro desse universo de números que tentam parecer precisos, o que é ser precisamente 1? Sentir-se solitário dentro de um quarto escuro?”

Acredito que o pior tipo de solidão (se é que existe um “pior tipo”) e o mais recorrente é aquela em que você se sente só, não apenas num “quarto escuro”, mas no meio de uma multidão, sem se sentir pertencente àquele lugar. 

É preciso encontrar forças para driblar as adversidades impostas pela sociedade e não se sentir pior por conta da situação dos outros, que muitas vezes parece algo que não é a realidade.

Todos, sem exceção, somos solitários, de certa forma. A única pessoa que convive conosco por todas as horas e sabe de todos os nossos dilemas existenciais, é a gente mesmo. Só precisamos aceitar isso e procurar encontrar a companhia necessária com as pessoas certas. É melhor uma pessoa importante do que centenas de pessoas que não trazem a satisfação de uma companhia verdadeira.

Felipe Kowalski

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Retorno de Uma Lenda

Carlos Ray Norris nasceu m 10 de Março de 1940 na cidade de Ryan, estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. Ele é o homem que contou até o infinito 3x, sendo uma dessas de trás pra frente, aquele que zerou The Sims, que tira sangue com um balde e um revólver, ele mesmo, Chuck Norris aos 72 anos está de volta após um convite de Sylvester Stallone. A lenda retorna para o cinema, provavelmente de forma a se mostrar para os adolescentes que o idolatram e vangloriam, principalmente para os que nem viram um filme dele. Nos cinemas ele retorna através de Mercenários 2: De Volta a Ação, o qual aproveita a imagem de fodão de Chuck no filme também, fazendo isso um ponto alto, além é claro de ele quebrar tudo nas cenas em que está presente.


O site de humor do mundo canibal criou o Chuq Nóia, que em forma de animações relata aventuras e feitos do incrível ser, porém dentre todas as piadas, tem uma que até mesmo o Google está junto comediando através de Chuck, afinal ao pesquisar por "Find Chuck Norris" (Encontre Chuck Norris) e clicar em Estou com Sorte aparece a seguinte frase em vermelho: “Google won't search for Chuck Norris because it knows you don't find Chuck Norris, he finds you”(Google não pode procurar por Chuck Norris, porque sabe que você não achará Chuck Norris, ele achará você.), isso se deve ao fato do Google abrir como primeiro site o nochucknorris.com e mostrar a mensagem como se fosse do site de buscas.

Mas falando em coisas mais sérias, Chuck Norris é o criador de uma arte marcial conhecida por Chun Kuk Do, que foi baseada principalmente no Tang Soo Do e inclui elementos de todas as lutas marciais conhecidas por ele. Assim como outras artes marciais, o Chun Kuk Do inclui um código de honra, regras e um sistema com oito faixas. Estas regras são do código pessoal de Chuck Norris. O Chun Kuk Do foi fundado em 1990 e já passou por diversos nomes desde sua fundação, sendo eles: American Tang Soo Do, Chuck Norris Karate System e Chuck Norris System.

Caso tenham a oportunidade, não deixem de assistir aos Mercenários 2 no cinema, apesar de Chuck Norris não ser tudo o que dizem, ele é um abobado que jdiojowiuejfoewnfcerwfvneg... Como o rapaz aqui dizia, “vocês não vão querer correr o risco de deixar de assistir meu filme, vocês sabem quem sou e o que eu posso fazer.”

Assinado: Mestre Supremo Chuck Norris

Leonardo Silva

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A amizade - doce e secreta

O doce e o secreto são o que fazem a amizade ser fantástica. São doces e secretos os olhares, os abraços, os segredos que carregamos um do outro. Úteis e insuportavelmente necessários, os amigos são presentes que o destino e a vida plantaram no lugar certo. Lugar certo, pois com toda a quantidade de seres humanos habitando o espaço terrestre justo Você, Meu Amigo, veio parar bem ao meu lado. Veio me dar ajuda e proteção, veio parar bem no meu trem? Bem na mesma rua? Bem na mesma praia? Bem na mesma aula? Bem no mesmo restaurante? É fácil aguentar as críticas não construtivas, os julgamentos insignificantes, as pedras que insistem em aparecer no nosso caminho quando nos preenchemos da doçura repugnante que abraça nossa alma – a amizade dessas pessoas que surgiram ali, naquele lugarzinho: a nossa vida. 

Na doçura de nossas diferenças, nos encontramos e nos mantemos em equilíbrio, no fio fino e trêmulo que caminhamos e quando desequilibrados, opa! 

- Amigo, cadê você? 

Ele surge rapidamente e nos alcança a mão! Quem ama cuida e compreende. Quem só critica, não conhece, não pergunta, não questiona e não espera nada de bom do outro, já que essa pessoa, única e exclusivamente, apenas, mesmo que inconscientemente, apenas critica. Deus me livre desses seres! Graças ao Lord que me sinto bem protegida contra tudo o que não me acrescenta. 

A amizade é um mundo paralelo no meio a maré estranha de pessoas que fazem parte da nossa vida. Ninguém sabe nem vê. Só nós - eu e eles, meus amigos. Lado, doce e secreto, que quieto, insiste em rechear nossa personalidade e quando apreciada pelos malucos que resolvem nos carregar no peito, funciona como uma bênção. Os pais e avós também entram neste patamar, já que nos amam queiram os infelizes, que não nos gostam, aceitem ou não. Amam-nos incessantemente, diga-se de passagem, como nos contos de fada lindos, onde o príncipe encantado e a princesa ficam felizes para sempre. 

Sabe quando somos aceitos pelo outro, mesmo quando esse estranho, conhece os nossos lados mais esquisitos? Isso é amizade. A magia da amizade está conectada ao encanto vindo de outra pessoa ao nosso lado secreto. Todos temos lado secreto, ele fica escondido no riso e é aceito pelos nossos amigos. É uma coisa mágica, tão doce que repugna a sensação de ser, não apenas aceito, mas protegido e cuidado pelo Outro. Um lado secreto, que digo de novo, repugna de tão doce.

Bruna Moraes

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

As facilitações e a frieza dos contatos pela internet

A internet nos trouxe uma série de vantagens e facilidades, inclusive nas relações sociais. Está mais fácil manter contato com uma pessoa. Mas, isso também traz algumas consequências, principalmente na questão do calor humano e nas conversas frente-a-frente. Eu mesmo sou uma "vítima" disso, assim como todas as pessoas, creio. Nesse texto, discutirei sobre o contato social via internet. 

A internet, assim como qualquer avanço tecnológico, surgiu com o intuito de facilitar a vida dos seres humanos. Com o advento do e-mail, as cartas se tornaram cada vez menos comuns por conta da comodidade. Com o surgimento dos sites de pesquisa, se tornou mais fácil buscar informações, sobre qualquer assunto, do que ir até a biblioteca e procurar um livro. A mesma coisa pode-se dizer das redes sociais. A interação entre amigos tornou-se mais cômoda, já que não é mais preciso sair de casa ou ligar por telefone para estabelecer contato entre as pessoas. Apenas uma mensagem no perfil dela ou por meio de um chat já é o suficiente.

Mas essas comodidades não tiram um pouco os pequenos prazeres de uma comunicação mais "trabalhosa"? Sentir o cheiro de um livro, tocar um papel, ver a caligrafia da outra pessoa em uma carta, falar com alguém olhando olho no olho, ouvir a voz, sentir o calor humano. Tudo isso faz parte da comunicação, mas fica em segundo plano através da comunicação pelo computador.

A comunicação é importante em qualquer relação social ou em qualquer pesquisa. O computador é importante para isso e é um modo eficiente de ajudar nessas questões, mas não deve ser a única e principal fonte.

Uma coisa que aprendi na vida é que vivemos em um mundo de aparências. E até nessa questão o computador se torna um efetivo facilitador. Você pode ser quem quiser na internet e enganar várias pessoas. Algo comum é pessoas mostrarem o que elas não são com atitudes pela internet. Desde coisas pequenas, como a pessoa não aparecer online em noites de sexta ou sábado para passar a impressão para os outros de que possui uma vida social agitada, de que vai para as baladas ou algo parecido, mas fica sozinha em casa vendo televisão e comendo pizza, até coisas mais graves, como pessoas ostentando bens que não possui, modificando a própria aparência para se sentir melhor, ou pessoas se passando por outras, pois a sua vida é insatisfatória. Prefiro ser visto com um "desajustado" e receber críticas pelo que sou do que ser elogiado e adorado pelo que não sou, mas muitos preferem ter seus egos inflados nas redes sociais por coisas irreais. De que adianta se apresentar em uma rede social com uma foto de perfil alterada por Photoshop e, quando se apresentar ao vivo, ser alguém completamente diferente? Inseguranças fazem parte da vida, só não pode ter medo de ser quem você é por conta disso e também porque a sociedade apresenta como "bonito" ou "aceitável".

Uma lição que fica é: nunca acredite em tudo que se vê, principalmente na internet. Muita gente tem medo de mostrar a realidade e tenta mostrar para os outros algo que não é verdadeiro para se sentir melhor. Mas eu escolhi desconfiar e não me iludir mais. Muitos relacionamentos que parecem perfeitos, fotos que captam a felicidade e a vida "perfeita" da pessoa por meio de suas postagens, são de fachada. Eu mesmo já me flagrei pensando "por que a minha vida é tão ruim comparada com a dos outros, que parecem ser tão mais interessantes e com uma vida social mais agitada?". Mas nunca é bem assim, as pessoas que vivem em uma sociedade que prega a aparência varrem os problemas e conflitos existenciais para baixo do tapete. Às vezes, a pessoa pode ser conhecida na internet, ter 5 mil amigos no Facebook e não ter ninguém com quem sair para se divertir.

Essas questões apenas me fazem refletir sobre a utilidade das redes sociais e da internet, seus prós e contras (o que ajuda e o que atrapalha nas relações humanas) e como as pessoas formularam as "regras" de como se deve agir na internet para ser "bem visto". As redes sociais podem ajudar na interação, até mesmo quando se é mais tímido e reservado como eu. Mas é preciso sempre lembrar que as redes sociais verdadeiras não é essa do computador, que você pode adicionar ou excluir seus amigos em um clique. A rede social é aquela que nós tecemos com as nossas vivências, com pessoas formadas por qualidades e defeitos, carne e osso. Mais importante que ser uma pessoa popular na internet, que interage com milhares de amigos, "seguidores" e afins, é ser uma pessoa satisfeita consigo mesma e com as suas relações no dia-a-dia. Lembre-se: você não é a quantidade de amigos que você tem na internet.

Felipe Kowalski

terça-feira, 11 de setembro de 2012

=`s

Um texto sobre um menino japonês e uma menina latino-americana que, ao se encontrarem, descobriram mais igualdades do que as diferenças sociais e geográficas, que pareciam limitá-los. 

Morei com um japonês. Falava pouco inglês e era difícil para nós nos comunicarmos. Então sorríamos reciprocamente nas primeiras horas.

Na manhã que acordei e encontrei- o na cozinha ele pediu minha faca emprestada e depois queria usar meu prato. Expliquei para ele que nossas culturas eram diferentes e que apesar de ele não estar entendendo, o porquê, não poderia comer no mesmo prato que eu, desejaria que ele usasse sua própria faca e alcancei a ele um dos pratos da pilha que estava a nossa frente. Mesmo assim ele fez questão de usar a minha faca. Enchi minha boca de pão e olhei para o Tommo com cara de joelho - sem expressão alguma, pensando “Queres usar minha faca?! Usa. Não estou nem aí, pois meu ônibus já está vindo”. Saí correndo na direção do ônibus que cantava o ruído sempre igual.

Nas nossas conversas pela casa, quando eu entendia as coisas, dizia: “Hm”. Quando o Tommo compreendia, dizia: “óóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó...” (não parava nunca). Assim vivíamos, entre “hm`s” e “óóóóóóóóóó...`s” intensos nos diálogos.

Nossas diferenças ficaram pequeninas no dia 11 de março de 2011, quando a Tsunami no Japão atingiu a casa de Tommo. Foi um sentimento de igualdade. Ninguém poderia entender a dor e o pânico que aquela criaturinha sentiu naqueles dias tristes. Com seus olhinhos puxados, alto e magro, sem gostar muito de banho e que quando o fazia, usava, sem pedir, meu sabonete - o que sempre me causava um estresse enorme - naquele momento em que a água da onda gigante arrastou aquela cidade que eu não lembro o nome, abracei ele como se fosse um irmão. O abraço foi ficando cada vez mais forte, já que não havia palavras que pudessem magicamente mudar a situação.

A maioria das culturas orientais não estão acostumadas com o toque: não rola abraço, aperto de mãos e muito menos beijo na bochecha. Mas foi de mais aquela notícia, minha pernas andaram sozinhas, minha meia deslizou e eu quase caí quando dobrei na porta do quarto do Tommo, então me segurei na porta do quarto e sem pensar nada, naquela fração de segundo, abracei o menino japa. Eu apenas expliquei que abraçar era parte obrigatória da minha cultura, como na dele, era normal comer no mesmo prato. Ele fez um “óóóóó...” no meio ao seu rosto fechado de tanta dor e molhado das lágrimas. Nos igualamos porque eu me coloquei no lugar dele e pensei que poderia ser eu a estar perdendo minha casa e família. Os dias passaram, o desespero passou, porque, graças a Deus, Tommo recebeu notícia do governo japonês que sua família tinha se salvado.

Iguais. Eu e Tommo éramos iguais, e não havia diferenças que nos fizessem ficar diferentes. Éramos seres que sofrem e amam do mesmo jeito. Um lá do Japão que queria comer no mesmo prato que o meu e eu aqui do Brasil, que fazia questão de tomar banho. Somos iguaizinhos. Nos unimos depois desse dia, depois Tommo foi embora. Nunca mais reclamei do sabonete nem da faca que o Tommo usava, apenas lembrava aquele japonesinho dócil e pensava nas nossas igualdades tão imensas perto das diferenças.

平等 
Bruna Moraes