Mostrando postagens com marcador Perfil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Perfil. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os traços do humor

Repórter Ping-Pong

Ele começou a rabiscar textos e desenhos aos cincos anos. Depois disso, jamais parou e agora insiste em sempre fazer piada. Aos 20, recebeu o diploma de graduação no curso de Jornalismo da UFSC. Nessa mesma época, publicou as primeiras charges no Jornal O Estado.

Há 15 anos, a graça das charges de Zé Dassilva chegam a todo o Estado de Santa Catarina por meio do Diário Catarinense. E a atividade profissional é ampla: Zé também atua como roteirista da Rede Globo. Já escreveu para séries humorísticas de sucesso como Casseta e Planeta, Sai de Baixo e Sob Nova Direção.

Em 2012, publicou um livro com as charges do ano. Além disso, acaba de lançar o blog Chiclete pro Cérebro onde vai publicar as charges que faz para o DC e eventualmente as crônicas que seu pensamento puderem expressar. Lá, o leitor encontrará, nas palavras de Zé Dassilva, materiais que estimulam a mastigação craniana.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O homem que aprendeu a ser com o mar

“O que é a nossa vida perto da eternidade?”, pergunta Luiz Otávio, um homem com espírito de criança e o saber de um experiente pescador

Mariana Smânia

Olhos sonhadores de um pescador com alma de menino
Estamos na Enseada do Brito, um dos únicos locais colonizados pelos açorianos no município de Palhoça, Santa Catarina. Ainda encontramos a típica igreja açoriana com apenas uma praça de distância do mar, marca registrada do colonizador. O lugar parece ter se perdido no tempo, com casas construídas pelos fundadores e ruas ainda lajotadas. As horas parecem demorar um pouco mais a passar, pelo som das ondas quebrando na praia, ou talvez por ser a característica mais marcante da principal atividade econômica da região: a pesca.

Não é preciso esperar por muito tempo para avistar um pescador saindo de casa com suas redes ou qualquer outro aparato de pesca. Os barcos ficam todos ancorados de frente para a Igreja, referência antiga da comunidade. De cima da torre principal podemos avistar, em especial, um barco não muito grande, de cor vermelha desbotada – talvez um pouco mais puxada para o laranja -, bem próximo da areia. É o barco de Luiz Otávio Martins, figura mais do que conhecida na região.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Dom da Cura

Kamila Porto

Seu Pedro herdou um bem precioso. Sua fé deu o dom de ajudar o próximo.

De estatura baixa, com ralos cabelos brancos, óculos, roupas quentes e pantufas para se aquecer do frio. Assim que escuta seu nome, abre a porta e pergunta: “Você precisa de uma benzedura, minha filha?”. Seu Pedro ficou meio desconfiado ao saber que não vinha à procura de uma reza, mas me convidou para entrar esbanjando simpatia.

A casa era simples, de madeira em tom amarelo, com as aberturas em rosa. Na sala de visita, uma estante com uma televisão, dois sofás, uma poltrona, muitas fotos penduradas em quadros e em porta-retratos espalhados em prateleiras ao lado de imagem de alguns santos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um achado inesquecível

Giovanna Dutra

Encontrar o personagem principal desta reportagem não foi uma tarefa fácil. Podemos dizer que foi preciso garimpar em várias minas até encontrar tesouro. Marcelo Lourenço da Silva é a agulha no palheiro que eu procurei durantes alguns dias. Quando nos conhecemos a conversa andou muito fácil. A princípio não me chamava nem um pouco a atenção redigir uma matéria sobre pescadores, me pareceu uma pauta pouco produtiva. Mas Marcelo me surpreendeu por sua sinceridade e convicção no mundo da pesca. 

Cheguei na vila de pescadores da Barra do Aririú, localizada na cidade de Palhoça, por volta das 20 horas. Sem muita expectativa pelo que iria encontrar ali, pois a vila parecia mais um deserto. Só se ouvia o som das marolas chegando aos bancos de areia. Mesmo sendo quase um peixe por causa da minha criação na beira mar, o cheiro do lugar incomodava um pouco. Era uma mistura de fim de pesca com álcool. Mas no meio de uma escuridão que parecia não ter fim. Depois de alguns minutos pude identificar uma pequena luz, num dos ranchos e escutar as risadas altas. Então caminhei até lá para ver o que estava acontecendo. Quando entrei avistei 5 homens alegres depois de um bom dia de pesca. Foi aí que conheci o Marcelo, minha agulha no palheiro. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ana e Antônio em: O amor do oceano

Bruna Moraes


“Lendário e surreal. Alma e coração batendo forte. Sorriso e sol poente, no topo da onda, vão os garotos, quase homens, vão a vida deles cheios de bravuras, sozinhos, os três pescadores. Ana na areia acenando para que o amor de sua vida cuidasse da própria vida durante a pescaria"

A infância de Antônio


- Vovô, obrigado por nos fazer crescer desta maneira. Que criança não fica feliz quando vai passar uma ou duas pequeninas semanas em uma praia?

- Pois nós vivemos no lugar mais precioso que as praias, vivemos pescando no mar. – o pequeno Antônio concluiu, quando ainda tinha sete anos. Agora com 35 anos, o menino que cresceu no mar, ajuda o pai com os a fazeres. A alegria e a responsabilidade andam lado a lado.

Ele e seu irmão eram crianças nativas de Florianópolis que tiveram uma infância de aventuras, tão pequeninos, em meio às sobras de pescadores descabelados. Divertiam-se com tudo o que faziam no barco. As más visões, quando ondas gigantes ameaçavam o barco, não assustavam os meninos.

- Que bom que não temos irmãs. – Riam.

Adoravam quando iam para o meio do oceano pescar... A não ser Antônio que era obrigado a acenar para Ana, a menina doce que morava na casa ao lado. Os olhos brilhavam como o mar. Ana ficava na areia, com suas saias e os pés descalços, o brilho em seu olhar refletia o sol, intenso e quente, borbulhando uma saudade momentânea, mesmo sabendo que logo os meninos estariam com peixes e muito trabalho de volta beirando o mar.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O pescador e sua alma

 Bianca Queda

O fim do dia se aproximava. No horizonte, o sol parecia apagar-se, confundindo-se com os fiapos cinza das nuvens que encaixilhavam os contornos da montanha. O estridor do vento sul anunciava a fina garoa que ali se alastrava. Já havia passado a hora de seu regresso. Porém, nas águas, o silêncio. Nem um rebojo, nem um sinal da sua presença, nenhum marisco. Apenas sua batera fora encontrada. Onde andaria?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O comentarista avesso à política

Repórter Ping-Pong

O personagem dessa entrevista completa 40 anos de carreira no jornalismo este ano. Paulo Alceu foi cabo-man, ou pau de luz - na gíria jornalística - cinegrafista, assistente de reportagem, repórter, correspondente internacional e, na contemporaneidade, atendendo às demandas da época, é um profissional multimídia: apresentador e comentarista de televisão, radialista, colunista de jornal impresso.

Na metade de sua carreira, atuou na imprensa catarinense e seu rosto, sua voz, seu trabalho é conhecido pelos telespectadores das emissoras locais. Atualmente, apesar de não gostar de política, destaca-se no comentário político em diversas mídias da Ric Record.

Em 1980, quando os ingleses declararam guerra aos argentinos, por conta da disputa de terras das Ilhas Malvinas, Paulo Alceu era um correspondente internacional da TV Globo. 
Comovido pelas memórias da carreira,
 o filme A Dama de Ferro, que conta a vida da ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher,  arrepiou a pele do jornalista.

Ele se diz jornalista por identidade, paixão, entusiasmo, romantismos do seu tempo. Sua versatilidade reforça os dizeres e ele deseja mais. Além da atividade multimídia, da longeva carreira e de apresentar o descontraído programa A Vida Segue, Paulo Alceu volta aos telejornais como âncora do Ric Notícias a partir de 8 de maio.

Nas linhas que se seguem, é o profissional que se apresenta. Uma reportagem não consegue reportar tudo, ela apenas daria pistas de sua história, um recorte interessante do que ele fez e faz. Mas nas linhas que se seguem, o personagem se descreve do seu jeito, a seu modo, com suas próprias palavras.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Prates não está calado

Repórter Ping-pong
Ilustração: Gessony Pawlick Jr.
Eis uma entrevista. Engano seu! Eis uma enxurrada de opiniões críticas e falas contundentes, severas. Luiz Carlos Prates diz que não precisa de coragem para dizer o que diz. Para ele, a coragem é a virtude de quem mente diante das câmeras, nas páginas dos jornais ou no microfone da rádio.
No passado, o polêmico (o adjetivo é inevitável) comentarista comportamental, foi um estudante de psicologia. Sua origem no jornalismo, começou nas aventuras fantásticas do rádio esportivo. Ele trabalhou na transmissão de esportes amadores e viajou por quatro edições da Copa do Mundo. Entrevistou o Rei Pelé, narrou uma partida de futebol do banheiro.
Prates não baixou a guarda depois que saiu da RBS. Continua palestrando em diversos cantos do país. Escreve em jornais do interior de Santa Catarina, transmite programas em rádios de Criciúma e Lages e, de segunda a sexta, apresenta o SBT Meio Dia, onde também bate na mesa no auge de seus apimentados comentários.
Noveleiro, preconceituoso assumido, crítico dos politicamente corretos, avesso à hipocrisia, viciado em falar bueno e em usar etc, etc, etc, Prates tem mais novidade: trabalha agora na sua primeira publicação em livro. Nessa obra, promete dar joelhaços nos leitores, tal qual o analista de Bagé, seu conterrâneo de Rio Grande do Sul.

domingo, 14 de abril de 2013

O anjo pornográfico

Thaís Teixeira

De suspensório e com um cigarro na boca, ele andava de lá para cá. Foi por muito tempo taxado de maldito e pornográfico, teve quatro peças censuradas e deixava os críticos malucos toda vez que lançava uma nova obra: seja no teatro, no cinema, na televisão ou em livro. Foram precisos mais 32 anos, após sua morte, para que Nelson Rodrigues fosse homenageado como um dos maiores dramaturgos brasileiros, uma joia rara e bruta que deixou um legado imensurável para a cultura do país.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O sentinela da memória

Repórter Ping-Pong

Um teste vocacional trouxe Paulo Markun para o jornalismo. O que esse teste não apontou, entretanto, é quem se deu melhor, se o Markun, ou o jornalismo. Não se trata de um puxa-saquismo bobo, mas de um reconhecimento inevitável.

Paulo Markun diz que não, mas sua obra é importantíssima para a memória dos brasileiros, pois ela registra momentos e personagens inesquecíveis do país e vai ao encontro do passado a fim de perguntar: como foi mesmo que isso aconteceu?

Não vou me alongar na abertura, pois a entrevista é demasiadamente extensa. Seu tamanho é uma inconveniência aos padrões normais. Um pecado de edição. Uma afronta à pressa das pessoas e ao seu ritmo acelerado. Defendo-me, pois: Diante de Paulo Markun é difícil tratar de um assunto. É impossível parar de perguntar, perguntar, perguntar...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Homem-gaivota

Uma história de liberdade, aprendizagem e amor

Ana Maria Ghizzo


"Com 726 quilômetros de extensão, a rodovia Osvaldo Aranha cruza o Rio Grande do Sul no sentido transversal leste-oeste. Na altura do quilômetro 522, a BR-290 é cortada por um arroio batizado pelos índios, como tantos na região. Com nascente na Serra do Caverá, o arroio Itapevi se integra a outros cursos d’água até escorrer para fora dos limites do Brasil. Início do século XX. Quase na fronteira com o Uruguai, no triângulo formado pelos municípios de Alegrete, Rosário do Sul e Cacequi, vivem Antônio Cândido Severo e sua esposa, Amazilia do Prado Severo. Na clareira de mata nativa que protege as águas do Itapevi, o agricultor, homeopata e curandeiro constrói a casa de pedra onde veria nascer nove filhos, três homes e seis mulheres (...)Primavera de 1930. (...) A notícia do recrutamento para reforço das tropas militares voa como rastro de pólvora pela campanha sulina. (...) Eurides Ignácio Antunes, filho do agricultor Antônio Ignácio Antunes e de Cândida Rodrigues Antunes, é um dos jovens convocados para sentar praça na Brigada Militar do Estado. Antes de partir, Eurides precisa despedir-se de Lahir, a namorada que vive com os pais Antonio e Amazilia, na casa de pedra à margem esquerda do arroio Itapevi (...)" (LAVRATTI, Ana; Antunes Severo: O menino do arroio Itapevi Ed. Insular, 2012)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O craque do jornalismo esportivo catarinense

Repórter Ping-Pong

Polidoro Júnior visitou a Unisul, onde foi sabatinado pelo repórter Ping-Pong
Ele já vestiu várias camisas da imprensa esportiva catarinense depois que resolveu ingressar na profissão. Passou pela TV Cultura, TV O Estado e RBS TV. O clube, digo, o veículo onde mais atuou foi a Rádio Guarujá. Foram mais de cinco passagens (ele falou que eram seis ou sete, perdeu as contas). Também esteve na Rádio CBN Diário, na Rádio Guararema e na extinta Diário da Manhã.

Quando criança, em 1972, assistiu ao jogo do Pelé de Santos contra o Avaí, no antigo estádio Adolpho Konder, onde hoje está localizado o Beira-mar Shopping. Desde sempre apaixonado pelo futebol, chegou a passar num teste para o infantil do Avaí, mas a mãe não deixou ele virar profissional.

Polidor Júnior, o nome já denuncia, é filho do radialista Dakir Polidoro. A responsabilidade é grande e ele diz ter honrado o nome do pai. É um jogador frustrado, mas um craque do jornalismo esportivo. Escreveu o livro Futebol, o Jogo da Memória: um estádio no coração da Cidade e revela que outras publicações vêm por aí. Hoje é colunista do jornal Notícias do Dia, apresentador e radialista. Polidoro está escalado para a Copa das Confederações, e ao lado de J.B. Telles, representará a imprensa catarinense no evento sediado no Brasil em junho de 2013.

domingo, 31 de março de 2013

Textos e sonetos

Maria Eduarda Silveira

Dia desses, eu estava pensando o que sei sobre meus avós. No mesmo instante, lembrei do cheirinho do bolo nega maluca da minha avó Rute, que ninguém faz macio e saboroso igual, e o chimarrão matinal do meu avô Jurandir, que me faziam pular cedo da cama. Lembrei-me, também, das “chantagens” do Seu Jura, que oferecia moedinhas em troca de minutos de cafuné, e das massagens e brincadeiras de casinha com a dona Rute, quando eu era mais nova. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

B de Bilac, B de meraki, por que não?

Ana Maria Ghizzo

Bilac, Belle Époque, Balzac... Para quem acredita em coincidências, a letra B pode aparecer por acaso com tanta frequência na vida e na obra da jornalista Marta Scherer. Talvez seja capricho do acaso, ou apenas uma letra que frequentemente cai no gosto da autora, vai saber. Mesmo não contendo a letra B, escolho meraki como a palavra que melhor define a autora.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um Jornalismo faraônico


Estudante de história da Udesc, Fábio Amorim Viera, sempre se interessou pela história do Egito faraônico. Quando teve a oportunidade de conhecê-lo, deparou-se com um dos acontecimentos mais importantes deste século, A revolução egípcia de 2011. Fábio chegou no Cairo em 21 de janeiro de 2011 e embarcou de volta ao Brasil em 10 de fevereiro do mesmo ano. Esteve presente na maioria dos 17 dias de revolta. Suas respostas às minhas perguntas foram longas e pontuais. Cheguei a questioná-lo se alguma vez já teria pensando em cursar jornalismo, e o entrevistado respondeu-me que sua primeira opção no vestibular era exatamente essa. Jornalista tem que ter faro para notícias e quem poderia ser melhor para contar uma história se não um historiador com veia jornalística?

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Uma repórter colunista

Repórter Ping-Pong

Tchê, a gaúcha Viviane Bevilacqua jornalista há 28 anos conversou comigo e falou sobre sua carreira nesta inefável profissão. Na entrevista, tive que dividir a mulher em cinco partes: a foca, a repórter, a professora, a digital e a colunista. Viviane é uma aula de reportagem gratuita e agradável. Não é aqueles professores que emperram um bom diálogo. Além de falar da sua atividade no jornalismo, ela mandou recado para os mais novos e sem hesitar aponta: jornalista não tem que mudar o mundo. Bah, cortou minhas asas.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Gestos que salvam vidas

Primeiro paciente de um transplante de fígado em Florianópolis, Nilson Roberto dos Santos, concedeu entrevista ao Estopim um ano e três meses após cirurgia

No dia 25 de novembro de 2011, o primeiro transplante hepático foi realizado no Hospital Universitário, na capital de Santa Catarina. Acompanhado pela equipe de médicos Ester Dantas, do serviço de gastroenterologia do HU, e do cirurgião-chefe do Hospital Santa Isabel, de Blumenau, (referência em cirurgias hepáticas), Mauro Igreja, a cirurgia salvou a vida de Nilson Roberto dos Santos, que sofria de cirrose.

Um ano e três meses após a realização da primeira cirurgia de fígado feita na cidade, entrevistei o paciente. A conversa ocorreu por telefone, Nilson além de lembrar a vida antes da cirurgia, falou do pós-operatório e das principais mudanças de hábitos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A história de dois músicos nas ruas de Florianópolis

A paz de Yamandu 

Uma bela manhã no meio de uma agitada semana, quinta-feira para ser mais preciso. As pessoas caminham com pressa, indo trabalhar ou cumprir seus afazeres. Nem todos parecem ter essa agitação na praça, há pessoas sentadas no banco se distraindo com seus jornais, vendedores ambulantes esperando por sua clientela, ciganas sentadas esperando para ler a mão de alguém por um trocado, turistas tirando foto da grande figueira. Pessoas de todos os tipos habitam a Praça XV, que chama a atenção por seus vários caminhos, pela diversidade cultural (as pessoas caminhando por lá possuem milhares de estilos e modos de se vestir, há desde pessoas de terno carregando maletas até jovens com camisas largas e bonés de lado) e pelas grandes árvores que existem por lá, dentre elas, como já mencionei, destaca-se a centenária figueira com seus longos galhos que cobrem boa parte da praça, sustentados por hastes metálicas. 

Seguindo meu caminho pela Praça XV, ouço um som bastante peculiar, um solo de violão. Depois ouço uma voz. Vejo um músico de cabelos curtos e grisalhos, camisa cinza clara, calças jeans e sapatos marrons escuros, sentado numa caixa de som que parece ter sido bastante utilizada, cantando com bastante empolgação, balançando a cabeça enquanto as palavras, em espanhol, saem de sua boca em frente ao microfone. Na frente dele, há vários CD’s enfileirados no chão. 

Seu nome estava estampado na capa do CD, Yamandu Paz. Um músico uruguaio, de Rivera, cidade pequena que faz fronteira com Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. 

Ele, que toca violão desde os 15 anos de idade, diz que seus estilos favoritos são o tango e música de folclore, apesar de também gostar dos clássicos. Além do violão, ele diz que toca gaita, sanfona e acordeom, mas o carro-chefe é o seu bom e velho violão, sempre afinado. 

Veio viver em Florianópolis pela primeira vez, tocando violão nas praças, há 4 anos, mas sempre indo e voltando. Esse ano, segundo ele, quer permanecer morando em Florianópolis. Yamandu se diz adaptado ao lugar, pois é uma cidade pequena, aconchegante e receptiva, morando de aluguel. 

Além de Florianópolis, Yamandu me disse que já esteve em diversos outros lugares, sempre tocando nas ruas. Já esteve na Argentina, Bolívia e conhece quase o Brasil todo, desde Curitiba até o nordeste. Já morou em Porto Alegre em 90. 

Anteriormente, teve diversos outros trabalhos. Fazia próteses dentárias, teve borracharia, lava-jato, trabalhou em empresas. Hoje, diz que só quer viver de música. Vive de forma humilde, mas com o que ganha, só com a música, já consegue pegar o aluguel, botar comida na mesa e viver bem, honestamente.

Todos os dias está na Praça, por volta das 9:00 até às 16:00. Yamandu diz que a rotina cansa, mas ele não tem escolha, e diz novamente que agora só quer viver de música. 

Toca nas ruas sempre com um fundo recortado de garrafa de refrigerante cheio de trocados que as pessoas deixam. Pessoas muito receptivas, que param e dão valor ao seu trabalho, segundo Yamandu. Além disso, ele vende seus Cd’s e outros álbuns de outros artistas. Cada um custa quinze reais e sempre tem gente para comprá-los. 

Um músico estrangeiro, completamente adaptado à cidade e sempre muito atencioso, talentoso e apaixonado pela música. Esse é Yamandu Paz. 

Numa segunda visita, vejo Yamandu ajeitando suas coisas para começar a trabalhar. Eram cerca de 9:30h e ela estava plugando o cabo de sua caixa de som numa outra caixa de metal num poste na praça. “Alta voltagem” estava escrito em letras bem grandes. Ele fala que não possui um site oficial, mas gentilmente me passou o seu número de celular caso eu queira entrar em contato. 

Ele diz que ninguém diferente apareceu nem nada muito inusitado aconteceu com ele nesses anos todos, ninguém que chamasse a atenção dele parou e o abordou de uma forma mais incomum. Ele diz que seus dias são normais, ele apenas se senta e faz o seu trabalho normalmente, sem grandes surpresas, mas menciono um vídeo no Youtube em que ele toca, em pé, nas ruas de Curitiba, cantando a música “Romaria” (conhecida pelo refrão “sou caipira Pirapora Nossa Senhora de Aparecida”). Ele abre um sorriso e fala que uma mulher havia entrado no clima e filmado, lembra que foi há cerca de três semanas e estava tudo muito enjambrado, sem microfone ou caixas de som. 

Lembra que outro vídeo foi gravado com ele em frente à figueira, mas que não sabe se já foi colocado na internet. Ao ser perguntado se ele faz shows em outros lugares, Yamandu sempre diz: “o meu palco é na praça, aqui é o meu lugar”. Sempre reiterando que agora ele quer viver apenas de música e está tendo êxito com isso. 

Yamandu é um dos poucos remanescentes que continuam nas ruas de Florianópolis e se manteve com a sua rotina estável, até o momento. É otimista e pretende continuar exercendo seu trabalho normalmente enquanto ele está por aqui. Afinal, ele é o único músico que está tocando na Praça XV todo dia e toda tarde, e como ele quer viver apenas de música, é uma esperança que teremos o surgimento de mais demonstrações artísticas, por trabalho e por prazer. 

Vocação é algo que é preciso muita prática e empenho para aprimorar. Yamandu Paz toca desde os 15 anos e manteve esse apreço pela música desde então. Muitos desistiram, mas ele é um dos vários artistas que continuaram a se empenhar em aprimorar seus dotes musicais diariamente. Pode não ter tido a fama e o dinheiro que muitos artistas almejam quando entram para esse mundo, mas ele possui o prestígio de pessoas que reconhecem sua dedicação e a boa música, tendo a perseverança e o talento que muitos não possuem, além do mais importante: a paixão pelo que faz. 

Yamandu, aparentemente, está bem satisfeito em ter chegado aonde ele chegou. Os discos vendem, as pessoas contribuem, ele toca diversas músicas de seu repertório (desde músicas uruguaias até brasileiras). Então ele é um batalhador, assim como a maioria das pessoas, que se dedicou em chegar onde ele está hoje. Enquanto muitos ainda procuram sua própria paz, música é a paz de Yamandu.

Charles e seu sonho orquestral 

Andando pela Trajano no horário de almoço (às 12:45) vejo uma movimentação intensa no local. Jovens se alimentando em estabelecimentos próximos, como a Massa Viva e o Bob’s, pessoas andando com pressa para retornar aos seus trabalhos, idosos aproveitando para caminhar um pouco, comerciantes ambulantes carregando seus produtos, ou seja, a quantidade de cidadãos andando naquele lugar era enorme.

Longe da agitação, entro na Losango Promotora de Vendas Ltda. Haviam pessoas que entravam procurando atendimento, mas nada muito exagerado. Uns minutos depois, aparece um rapaz simpático de óculos de grau e sorriso fácil, ele estava com o uniforme da Losango, indicando que trabalha lá. Era Charles Espíndola, de 18 anos, manézinho da ilha, cujo cartão diz que toca violino em festas, eventos, casamentos, aniversários, confraternizações e homenagens. Ele é conhecido por, até duas semanas atrás, tocar violino pelas ruas de Florianópolis. 

Charles me conta que toca violino há quase 5 anos, desde os 13. Não conhecia quase nada de música até receber um convite da supervisora da Escola Estadual Urbana Jurema Cavalazzi (onde Charles estudava no período diurno) aos alunos para aprender a tocar instrumentos como viola, violino ou violoncelo num projeto da Fundação Franklin Cascaes. Como apenas escutava MPB que a mãe gosta de ouvir e não tinha muito o que fazer depois da aula, Charles pensou em aprender a viola (para posteriormente aprender violão), mas se surpreendeu em ver que a viola não era do tipo “caipira”, e sim uma espécie de violino com cordas mas graves. Apesar disso, decidiu continuar com as aulas. Haviam mais alunos que instrumentos musicais, o que impossibilitava os empréstimos para os estudantes ensaiarem em suas casas, tinham que dividir entre eles.

Porém, com o passar do tempo, ocorreram várias desistências e Charles ficou bastante feliz ao poder pegar a viola emprestada para ensaiar, já que, agora, havia um instrumento para cada aluno. 

Como ele não tinha mais nada pra fazer depois das aulas (não tinha videogame, computador, jogos), ele fazia as tarefas e deveres de casa para ensaiar. Ficava por volta das 14h até as 18h só treinando, dizia que sua irmã mais nova se incomodava com o som, quando ela queria assistir televisão. 

Já que ele se tornou um aluno de viola/violino bastante avançado, Charles comprou seu próprio instrumento e viu que, no Chile, em Viña Del Mar, Valparaíso, havia um encontro de jovens músicos. Seu professor perguntou se ele queria mesmo viajar, ao receber a resposta afirmativa, ele disse que Charles iria viajar, agora era só arrumar o dinheiro. Como era caro (por volta de 2000 reais), Charles decidiu tentar a sorte e tocar nas ruas. Ficava inicialmente na Jerônimo Coelho, próximo da Panvel, e no mercado público. Tocava músicas clássicas, românticas e tango, principalmente. Inclusive, o que diferencia Charles é o violino, sua marca registrada. É um instrumento mais exótico e “refinado”, raro de ver as pessoas tocarem nas ruas.

No inicio, dizia ficar acanhado, pois seus amigos poderiam dizer que ele estava esmolando ou algo parecido, mas depois, quase todos da região o conheciam e a timidez deu lugar para o empenho. Chegou a aparecer na televisão, numa matéria de esportes, já que sabia tocar o hino do Avaí. Charles já presenciou cenas inusitadas nas ruas, quando como recebeu, por duas vezes, notas de cinqüenta reais de um mesmo sujeito, ou quando, ao tocar um tango, viu uma mulher, possivelmente estrangeira, chorar em sua frente. 

Com o reconhecimento, Charles foi tocar também no Maria’s Gourmet, restaurante da Jerônimo Coelho que o acolheu, através de uma pessoa chamada Carla, que o convidou para fazer a sua música lá no horário de almoço em troca de um pagamento extra e almoços gratuitos. Seu cronograma acabou ficando o seguinte: estudava de manhã até o meio-dia, tocava nas ruas por volta das 14h até as 16h30minh ou 17h e ia ensaiar na orquestra profissional das 19h até as 21h. Ou seja, das 14h até as 21h sua dedicação era totalmente voltada para a música. Seu maestro e professor é André Vieira, bastante requisitado em Florianópolis. 

Porém, nas últimas semanas, Charles abandonou a idéia de tocar nas ruas quando cobraram dele um alvará para continuar. Ele “escapa” de vez em quando para o Maria’s Gourmet, para dizer que “ainda está vivo”, mas como já conseguiu bastante renda nas ruas, ele parou. Agora, trabalha na Losango atendendo clientes (inclusive nos sábados), toca em diversos eventos (alguns arrumados pelo próprio tutor, André Vieira. Nos que André não consegue ir, ele manda alunos mais experientes, como Charles). Além de tudo, Charles dá aulas (já foi requisitado para isso quando tocava nas ruas) para alunos fixos. Ele conta que seus pupilos são bastante empolgados, uns já compraram seus próprios instrumentos (ele tinha dois violinos, um ele emprestava para os alunos, mas ele precisou vender esse segundo instrumento para acumular renda). Dá aulas em uma creche na Vila Aparecida e no Pântano do Sul, que considera um lugar bem longe, com longas horas de ônibus para chegar até lá. Ele sempre recomenda que seus alunos compareçam também no Instituto Franklin Cascaes, onde ele começou, para que tenham aulas gratuitas. Inclusive Charles dá aulas lá também. 

Charles não possuí um site oficial, mas já lançou músicas no Youtube com auxílio do programa Audacity. Tocou uma música Gospel e “Yesterday” dos Beatles. Diz que possuí uma mente bem criativa, mas faltam mais teorias e conhecimentos melódicos para compor suas próprias canções. Porém, não deixa de afirmar que adora improvisar. 

Sempre fala que quer viajar, arrumar mais contatos e expandir seus horizontes. Quer se aprimorar numa segunda língua, já que sabe o básico do inglês. Têm planos de viajar para aprender sobre música e culturas diferentes. Possui muitos sonhos, como ele mesmo diz: “só ter a experiência de fazer um teste para entrar na orquestra de Viena, já seria uma honra enorme”. Adquirir conhecimentos novos pelo mundo e fazer o que gosta são sonhos que Charles pretende realizar com todo o seu empenho e devoção à música.

Yamandu Paz e Charles Espíndola podem ter diferenças gritantes e histórias de vida bem diferentes, mas ambos possuem a mesma paixão: a música que corre nas veias de ambos.

Felipe Kowalski

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Kim Puch

Por trás da história que todos sabemos

Os detalhes das lembranças que apenas alguém que viveu na guerra consegue descrever. Kim Puch emocionou alunos, professores, comunidade e repórteres do Fantástico no auditório do Campus Unisul Grande Florianópolis, dia 11 de Outubro. Sua história é comovente, diferente do que contam os livros didáticos usados nos colégios para explicar os conflitos do mundo, que Kim Puch traz consigo relatos do sofrimento, das queimaduras, das vezes que desmaiou de dor e dos sentimentos que o acometeram: compaixão, coragem, vitória e fé. Ao ouvir a história da menina que protagonizou a famosa fotografia, Kim Puch, com seu jeito oriental, a voz suave, a baixa estatura, a educação e a paz que transmite, impressionou a todos os presentes.

Quarenta anos após a tragédia onde adquiriu queimaduras de primeiro grau em 50% do seu corpo, ela confessa sofrer ainda com as dores que voltam com a mudança de tempo. Kim revela que para esquecer a dor, que a faz sentir-se doente, escuta música, fala ao telefone e caminha.

Kim e a fotografia

Kim relatou que simplesmente, enquanto a bomba explodia, sua roupa sumiu do corpo que pegava fogo. “A bomba de Nepalm, queima em altas temperaturas pela mistura com a gasolina. Os soldados que nos socorreram infelizmente, não sabiam a composição da bomba, e ao tentar nos socorrer, nos queimavam ainda mais, jogando água em nossos corpos, a queimadura tornava-se ainda mais profunda. Eu apenas chorava.”

Kim descontraiu a platéia ao longo dos seus contos emocionantes. Com bom humor, relatou ser um milagre estar no Brasil e, que graças ao fotógrafo Nick Ut, o responsável pela famosa fotografia ao lado e por levá-la ao hospital, está viva. Puch contou que durante quatorze meses esteve internada no hospital, que ao longo deste período sofreu dezessete cirurgias e que desmaiava de tanta dor. “Nós devemos aprender com nossas experiências e ficamos mais fortes. Rezo muito, isso me ajuda e me ensinou uma lição: A importância do amor. A compaixão dos médicos, enfermeiros, amigos e familiares. Sentia muita dor e meus irmãos e primos me massageavam”.

Kim cita também a fotografia, como um bem valioso que fez com que as pessoas, mudassem o pensamento a respeito da Guerra. Os soldados que usavam as bombas para abrir territórios, ficaram chocados ao saberem que, além de terem realizado o objetivo de acertar as bombas nos lugares necessários, estavam mutilando e matando inocentes. Em 1996, reencontrou o piloto do bombardeiro e o perdoou em frente às câmeras. Kim, com suas raízes de fé ligadas ao catolicismo, pode ser um exemplo de vida. “Se eu, que

sou a menina ferida na Guerra do Vietnã, que passei anos com muita dor, as quais sinto até os dias de hoje, pude perdoar as pessoas que queimaram a minha pele, que caía de mim naqueles instantes eternizados em uma foto, vocês também podem perdoar seus inimigos, vocês não acham?” Kim Puch, muito mais do que uma

vitima da guerra, tornou-se um ícone exemplar de coragem e compaixão. Hoje, seu objetivo é ajudar crianças que sofreram as consequências de conflitos entre territórios e pede contribuições para os projetos que ocorrem em vários países diferentes.

A vida pós guerra

Com 19 anos, graças aos 14 meses que passou no hospital, ingressou no curso de Medicina. “Foi por um curto período. O governo vietnamita achava que eu deveria ser um símbolo da guerra, e me transformaram nisso. No meu país não éramos livres para fazer nossas escolhas. Mais tarde pedi para um ministro para voltar a estudar e fui enviada para a Universidade de Havana, em Cuba”.

Kim maravilhou-se com o Espanhol e ao chegar em Cuba, iniciou estudos relacionados a língua espanhola, direcionando seu tempo para estudos de graduação em Inglês e Espanhol.

“Você pode perder tudo, mas se tiver o amor da família você recupera tudo.” Esta frase foi dita por Kim, que no decorrer da aproximada uma hora e meia que esteve com o microfone na mão, passou ao público, uma lição de vida em frases relacionadas ao amor e a fé. “A fé e o poder do amor são mais fortes do que a bomba Napalm”.

Kim Puch, milagrosamente não perdeu a vida com a pele 50%) queimada, hoje, percorre o mundo, como um exemplo de vida para qualquer pessoa.

Bruna Moraes

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O menino que traficava livros

Aristides Nepomuceno é um jornalista atento aos acontecimentos da sua cidade. Repórter há 23 anos, trabalha no jornal de maior circulação da cidade, onde escreve a coluna Gente. Há dois dias, ouviu boatos de que um menino traficava livros na região. Aristides queria uma matéria e conversou com as pessoas que já tinham visto o garoto.

“Ele não tem pai nem mãe. Não trabalha, vive com esses livros em baixo do braço e sempre está com obras diferentes. Dizem que rouba das livrarias para vender a preços mais baixos na estação rodoviária. É um marginalzinho. Seu Antonio da banca o pegou roubando uma vez também. Depois a polícia veio, deram uma coça nele, mas não adiantou”.

“Não creio que leia os livros. Parece que só repassa mesmo, porque não fica muito tempo com eles e não pode ler tão rápido. Ele me roubou um livro certa vez. Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Uma raridade. Não é difícil achar o bandidinho. Ele é magricelo, carequinha, está sempre com os livros e anda apressado. É um fugitivo”.

A sede jornalística de Aristides aumentou depois da conversa com a gente da cidade. As senhoras, os comerciantes, os bons moços foram unânimes no julgamento: havia naquela cidade um marginal capaz de entrar imperceptível em bibliotecas, livrarias, sebos, bancas e furtar uma obra valiosa para depois vendê-la a preço de banana. Mas, se ele era bom criminoso, por que levava livros?

Na rodoviária. Segundo o relato de D. Candinha, o menino vendia os exemplares na estação rodoviária. Aristides pegou o gravador, a câmera fotográfica, um bloco para anotações e a sede de uma boa matéria moveu-o até a estação, possível habitat natural da sua fonte.

Os olhos do jornalista por pouco não saltaram do rosto ao ver o garoto cercado de livros. A abordagem não podia ser agressiva. Era necessário primeiro quebrar o gelo e, depois, tentar a entrevista e conquistar a matéria de capa do jornal do dia seguinte com uma bela foto do menino maltrapilho.

Aristides inventou que pretendia dar um livro de presente a uma amiga, que era jornalista e pediu ao garoto o que poderia agradar a moça. O menino conhecia bem seus produtos e apresentou-lhe as sugestões, dando aula de conhecimento e surpreendendo Aristides como era comum com todos os clientes.

“Tenho um conjunto que chamo de boas histórias de vida. Três biografados e três biografistas. O primeiro é uma obra sobre Getúlio Vargas. É o primeiro volume de uma trilogia. Se a sua amiga for uma jornalista séria e pretende ser competente ela precisa entender um pouco de história e conhecer as transformações que o pai dos pobres fez no Brasil. Ela vai se deliciar com a escrita objetiva de Lira Neto, o biografista. O biografado gaúcho tem uma história riquíssima: esse livro fala da infância, dos anos que frequentou o curso de direito, da entrada na vida política, cita a famosa desavença entre ximangos e maragatos que ocorreu no Rio Grande do Sul, e termina no começo do governo provisório, em 1930. Tua amiga vai conhecer um dos políticos mais habilidosos que esse país já viu. E ela vai querer comprar os próximos volumes, aliás, diga a ela que venha comprar comigo que faço um bom preço”.

“O segundo livro, a sua amiga tem a obrigação de ler. Chatô o Rei do Brasil conta a história de Assis Chateaubriand, considerado um crápula, escroque, patife, estuprador, pelo próprio biografista, o também jornalista Fernando Moraes. Chatô saiu da pobreza do nordeste para ser uma das figuras mais influentes do país à sua época. Presidente nenhum queria se eleger sem o apoio dos Diários e Emissoras Associados, a cadeia de jornais que ele criou. Chatô determinava as regras até para os industriais da época e atirava nos culhões de quem não aceitasse suas opiniões, ou imposições. Seus artigos funcionavam como uma navalha a dilacerar seus opositores. Os feitos não são estritamente jornalísticos, ele criou o MASP, foi imortal da Academia Brasileira de Letras e foi senador. Sua amiga não precisa inspirar-se nas traquinagens de Chateaubriand para ser boa jornalista, mas ela precisa saber quem foi ele na história do nosso país, manobrando sua cadeia de rádios, jornais e de televisão”.

“Por último, O cavaleiro da esperança, Luis Carlos Prestes, o terceiro biografado. O autor do livro é Jorge Amado. Que enredo esse sobre o Prestes! Jorge Amado bem disse, era sua obrigação como escritor contar a história do herói do povo. Prestes é dono de uma nobreza reconhecida e assimilada pelos soldados que comandou nas suas revoluções. A Coluna Prestes é o símbolo da valentia desse homem que desde cedo ele mostrou ser. Prestes é o Brasil. É o povo. É a dignidade. Tua amiga tem ainda um outro motivo pra ler essas três publicações. Prestes, Chateaubriand e Getúlio são contemporâneos e influenciaram a vida um do outro. Eles são personagens de um tempo passado que deve constar na memória de todos os brasileiros. Eu não sei se a sua amiga é brasileira, mas sei que ela é jornalista e como escolheu esse ofício é sua obrigação vasculhar esses arquivos da história”.

Aristides desistiu da matéria de capa. Desistiu de qualquer matéria. Perguntou o preço dos livros, pagou, deixou o garoto ali e saiu. O jornalista preferiu não mudar o curso das coisas. Se o garoto fosse exposto em qualquer jornal, ele não entraria em sebo, em livraria nenhuma sem ser reconhecido e o tráfico de livros seria apenas história de jornal.

Nícolas David