segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Segredo dos seus olhos

Juan F. Garces


O que um simples olhar pode revelar?

Faz algum tempo que o cinema argentino me apresenta um grande encanto. Posso citar muitos filmes fantásticos, como Nove Rainha (2001) e o XXY (2007), este último levantando uma curiosa questão de gênero. Acho interessante comentar sobre algum filme feito pelos nossos hermanos, e aqui apresento o longa dirigido por Juan José Campanella, O segredo dos seus olhos (2010).

Benjamin Espósito (Ricardo Darín), após trabalhar boa parte de sua vida no Tribunal Penal, já aposentado, dedica o seu tempo livre para escrever um romance baseado em um caso que trabalhou em 1974 – investigar um violento assassinato da jovem Liliane Coloto (Carla Quevedo), seguido de estupro. Ao resgatar traumas antigos, Benjamin entra em um confronto interno, devido ao romance que teve com Irene (Soledad Villamil), sua ex-chefe, e alguns equívocos passados.

A história oscila entre duas temporalidades: 2009 e 1974. A última foi um período de grande conturbação para a Argentina, com extrema violência política que antecedeu uma segunda ditadura militar no país, denominada “Processo de reorganização nacional”. Tudo se iniciou com a deposição de Juan Perón realizada pelos militares em 1955, fazendo-o buscar exílio na Espanha. Os militares estiveram no poder até 1963, quando houve nova eleição, colocando Arturo Illia na presidência. No entanto, outro golpe ocorreu em 1966, o presidente foi deposto e os militares novamente governaram o país até 1973, quando outra eleição colocou Perón, que já havia retornado do exílio, novamente no poder.

Em meio a este cenário político, desenvolve-se a trama e alguns aspectos das características do personagem. Em um determinado momento, Ricardo Morales (Pablo Rago), marido da vítima, pergunta para Benjamin qual seria a pena do agressor. Em resposta, ele explica que a pena para violação seguida de morte era prisão perpétua, pois na Argentina não havia pena de morte. Em seguida, o noivo diz que era contra a pena de morte, pois seria uma morte rápida e pouco dolorida, e isso não pagaria o sofrimento da sua mulher.

Após essa cena, Benjamin observa o álbum de foto do casal. Nesse meio tempo, ele percebe que um homem estava sempre com os olhos direcionados para a vítima. A partir desse fato, ele descobre Isidoro Gomez (Javier Godino), o homem que futuramente terá uma grande importância na história. Aqui, talvez, começa a alusão ao título do filme. Através do olhar, ou seja, da maneira como ele encarava a vítima – descrito por ele como um “olhar de adoração” –, Benjamim descobriu que Isidoro seria o possível responsável pelo assassinato. Um olhar pode revelar aquilo que as imagens ou as palavras tentam esconder. “Os olhos falam”.

Como o filme mostra, os acontecimentos do assassinato passa-se em junho de 1974, ano em que Perón ainda governava o país. Em uma cena, quando Benjamin vai ao encontro de seu amigo Pablo – que tem um grave problema com alcoolismo – ocorre o seguinte diálogo:

- Este país está de cabeça para baixo.
- É você que está de cabeça para baixo, irmão.
- O que você queria, com esse demagogo como nosso presidente?
- Cuidado com o que você fala, vai ter problemas.

Tudo indica que esse presidente seria o Perón. Embora a ditadura, em teoria, teve o seu fim em 1973, isso não impediu que grupos paramilitares e milícias atuassem no país. Ocorria muita pressão dos militares para novamente tomar o poder, porém, a aceitação da maioria do povo era forte. Perón morreu em julho de 1974, dando lugar ao governo da sua esposa, María Estela Martínez de Perón. Mas a população não teve uma reação positiva, facilitando assim a ação de um novo golpe realizado pelos militares, tirando-a do poder em 1976.

Outro elemento que também representa parte desse episódio conturbado é quando os protagonistas se deparam com Isidoro fora da cadeia, solto com o intuito de trabalhar para o governo exercendo a função de espionar jovens subversivos. Em uma das cenas, eles pegam o elevador junto com o assassino, este portando uma arma. Podemos relacionar com acontecimentos de muitas das ditaduras na América Latina. 

Mesmo com o fim da ditadura, os que sofreram com esse regime tiveram que aguentar a angústia de viver ao lado dos seus agressores, ou presenciar culpados por mortes grotescas caminhando livremente pelas ruas. No Brasil, existem relatos que mostram torturadores trabalhando ao lado de suas vítimas com o fim do regime, sem receber nenhuma punição. Sem contar que algumas pessoas foram obrigadas a buscar exílio em outros lugares – Assim como Benjamin, após a morte de Pablo (Guilhermo Francella).

Outra cena que faz menção ao olhar é quando Benjamin encontra o viúvo na estação de trem, a espera de Isidoro. Naquele momento, o processo já estava arquivado, mas Benjamin sentiu-se culpado, então ele e Pablo foram conversar com Irene sobre o caso. Segundo suas descrições, o assassinato da esposa havia parado no tempo para Morales, uma forma de amor comovente. E para justificar a sua teoria, fala: Você deveria ver os seus olhos, Pablo. Estão sempre em um estado de “puro amor”. Novamente, o olhar revelando o sentimento de alguém ao protagonista.

“Você pode trocar de casa, de cara, de namorada, de emprego, mas tem uma coisa que você não pode trocar: a sua paixão”. Essa foi a frase professada por Pablo e que ajudou finalmente a encontrar Isidoro em um campo de futebol. Essa fala também desvenda o final do filme. No interrogatório, Benjamin tenta tirar uma confissão do agressor, mas não obtém sucesso. É quando Irene entra na sala e depara com os olhos de Isidoro encarando os seus seios, revelando para Irene que ele era, de fato, o assassino. Novamente o olhar mostra a verdadeira personalidade de alguém, aquilo que estava em silêncio, facilitando o jogo psicológico de Irene sobre o rapaz.

Vinte e cinco anos depois, Benjamin procura o endereço de Morales para lhe fazer uma visita, utilizando como pretexto a apresentação do livro que estava escrevendo. Revivendo os fantasmas do passado, Benjamin começa a fazer questionamentos ao viúvo, o que o deixou irritado e o fez expulsar o visitante de sua casa. No entanto, antes de sair, Benjamin explica como, possivelmente, o seu amigo Pablo morreu, lembrando-se de sua ultima frase: “Nós vamos pegar esse filho da puta” – referindo-se a Isidoro. 

Comovido, Morales explica que matou Isidoro anos atrás, insistindo para Benjamin esquecer de vez todo esse episódio. Mas com alguém que era contra a pena de morte pode cometer um assassinato? Como alguém que sempre dizia que a morte não era castigo o suficiente para pagar o sofrimento da esposa teria se contentado com alguns tiros? Esses pensamentos vão tomando conta de Benjamin. A cena de Morales ao dizer que matou Gomez volta à sua cabeça e, novamente, a câmera foca nos olhos para desvendar a verdade.

O final dessa história é comovente. A personalidade dos personagens foi construída cuidadosamente para completar a trama. Talvez seja interessante destacar a grande atuação do Ricardo Darín que, como sempre, interpretou a sua personagem com grande maestria. Para finalizar, gostaria de deixar uma mensagem: Em muitos casos, a morte não é a punição ideal.

Um comentário:

Alexandre Caetano disse...

O filme tem a sutileza do silêncio, do olhar, da palavra não dita, do sentimento não vivido. Além disso me lembrou histórias do Edgar Alan Poe! Tem uma crítica sobre isso em
www.artigosdecinema.blogspot.com/2013/12/o-segredo-dos-seus-olhos-el-secreto-de.html