domingo, 31 de março de 2013

Textos e sonetos

Maria Eduarda Silveira

Dia desses, eu estava pensando o que sei sobre meus avós. No mesmo instante, lembrei do cheirinho do bolo nega maluca da minha avó Rute, que ninguém faz macio e saboroso igual, e o chimarrão matinal do meu avô Jurandir, que me faziam pular cedo da cama. Lembrei-me, também, das “chantagens” do Seu Jura, que oferecia moedinhas em troca de minutos de cafuné, e das massagens e brincadeiras de casinha com a dona Rute, quando eu era mais nova. 

Horas pensando e tudo o que consigo me lembrar são coisas boas: amor e muito carinho nesses quinze anos em que meus avós maternos moram comigo, com meus pais e com a minha irmã. Mas o que sei realmente sobre eles? Quais eram seus sonhos quando crianças? E seus desejos? Tornaram-se reais? O que você, leitor, sabe sobre seus pais e os pais dos seus pais? 

É claro que não me fiz tais questionamentos do nada, sem motivo. Na verdade, nunca senti necessidade de saber algo além do que já era claro: que os avós são os nossos pais melhorados – digo isso porque são eles que, além de nos orientar e ensinar, raríssimas vezes brigam quando fazemos algo de errado. Mas agora é diferente, e logo explicarei o porquê. 

Há exatos três meses e oito dias, fomos a Porto Alegre, para passar o Natal em família. Aliás, que belo Natal! Mesa farta, árvore cheia de presentes e muitos agradecimentos na hora da ceia à meia-noite. Mas, já no dia 25, Seu Jura sentiu-se mal e foi levado ao hospital para fazer alguns exames e, então, retornar pra casa. Infelizmente não foi o que aconteceu: duas paradas cardiorrespiratórias fizeram-no permanecer lá até hoje. 

Estranha sensação essa de perder parte de mim assim, do nada. Um dia tê-lo comigo, rindo e fazendo as brincadeiras costumeiras, e no outro, vê-lo desacordado numa cama. Isso me doeu muito. Ainda dói. Mesmo com toda garra que tem mostrado na recuperação, ainda não tem previsão de alta do hospital. E não tem previsão de fazer um chimarrão pra mim, de me pedir um carinho e de sentar comigo e contar a história de sua vida.

O aconchegante colo de um casamento de 57 anos
Felizmente lembrei-me de uma caixa que ele me mostrara há alguns anos, com uma etiqueta amarelada escrito Textos e sonetos. Peguei a caixa e li cada texto e carta antiga que ele guardou ali. A maioria dos anos 1950. Que emoção! Descobri algumas histórias e momentos importantes, que só a mim importam agora, e que fizeram diminuir, mesmo que pouco, o vazio que sinto toda vez que penso nele. Ao contar para minha avó, sua reação foi falar, com a mais saudosa voz: “É, Dudinha, tem que rezar pro vô sair dessa”. Sim, só nos resta rezar.

Para você que me lê, digo tudo isso com uma intenção: não deixe para depois o que pode ser feito agora, em especial quando se trata de uma demonstração de amor, carinho e afeto. Sim, é clichê. Mas eu nunca dei muito valor a isso até acontecer o que aconteceu. Vou visitar meu avô sempre que a corrida rotina me permite, mas não posso – ainda – fazer as perguntas que não fiz e nem dar o abraço que não dei sempre que ele me pediu. 

Já experimentou passar um dia em casa? Largar tudo o que te prende e conversar com a sua família, seus pais? Descobrir o que acontecia antes de você vir ao mundo? Tudo isso que você, assim como eu, talvez não saiba, faz parte da sua história. Às vezes, damos valor a outras coisas que não têm tanta importância como uma boa conversa jogada fora. 

Eu, por enquanto, me contento com as cartas de amor, com os sonetos e com as quadrinhas, que ele sempre escrevia. Converso com minha mãe, com meus tios e com a Dona Rute, eterno amor do Jurandir Braga da Silva, como ele mesmo escreveu em 1955, para saber mais sobre quem foi o meu avô, quais eram seus medos e seus sonhos, até que ele possa retornar para casa e, enfim, me contar com suas próprias palavras. 


“Sem te ver eu passo meses
E nisto vai meu tormento 
Não bastam todas as vezes 
Que te vejo em meu pensamento” 
J.B. Silva

2 comentários:

Mariana Alflen Almeida disse...

Nossa, ao terminar de ler (com lágrimas nos olhos), só consigo pensar no quanto foi bem escrito esse texto, no quanto é grande a tua sensibilidade e amor pelo teu Avô. Tinhas um ou vários objetivos a alcançar quando escrevesse ele, claro, com certeza alguns eram de tocar o leitor, fazer as pessoas refletirem sobre tudo o que o texto traz e principalmente desabafar e continuar tendo esperança, sonhando com o retorno do teu Avô pra casa. Com toda a certeza tu conseguiu alcançar todos eles. Estou torcendo muito para que ele retorne e possa te fazer e pedir todos os carinhos do mundo. Melhoras pra ele,força à tua família, à Ana. E sucesso na tua carreira, tu é muito talentosa, Duda! Parabéns ;* Márih Alflen.

Luiz Felippe Antunes disse...

Tenho saudades do meus avôs. Apesar de ter conhecido só um, sinto falta de ambos.

Esse texto deveria servir como EXEMPLO para todos os jovens de hoje em dia, que não dão valor à família em geral. E não sabem tudo aquilo que estão perdendo... troca de carinho, histórias, e principalmente APRENDIZADO! A fórmula é simples, AME QUEM TE AMA! A sua família é seu porto seguro.

TEXTO EXCELENTE!