domingo, 18 de novembro de 2012

Facebook ou livro

“Livro” vem do verbo “livrar” - tendo como principal objetivo livrar-te da ignorância. Entrei no Facebook, mais uma vez, e me deparei com essa frase provocativa. Certa afirmação me levou a perguntar: O que seria do homem não fosse o livro?

A obra O terceiro Chipanzé, de Jared Diamond, trata da brutal semelhança do homem e do macaco. Sua teoria é de que a fala foi fundamental para o desenvolvimento da espécie Homo Sapiens. A partir dela nos tornamos capazes de compreender uns aos outros e criamos uma incrível habilidade de transmitir conhecimento. Caso contrário, seríamos apenas mais uma raça primata, e, possivelmente, pelas características que apresentamos, a menos favorecida de todas. Enfim, nós falamos, transmitimos o conhecimento adquirido através dessa fala, mas não somos muito mais do que macacos.

O que seria do mundo sem os livros? Seria semelhante a uma humanidade sem a linguagem falada? Planeta dos Macacos? E se existissem apenas os de Autoajuda?

Caso Hitler tivesse queimado todos os livros – e espero que o Führer tenha incendiado alguns de Autoajuda-, com a contribuição dos professores grevistas APEOESP, que protagonizaram cenas grotescas ao atirar livros às chamas em praça pública, saberíamos a resposta.

“Onde se queimam livros, acabarão por se queimar pessoas” profetizou Heine, poeta alemão de origem judaica, cem anos antes do início do terceiro Reich. Já disse aqui, em outro artigo, que numa vida passada fui enforcado. Nessa não pretendo ser queimado. Podem sim, todavia, queimar-me quando eu estiver morto. O filósofo Mario Sergio Cortella, ex-secretário da educação de São Paulo, tentou aplicar uma ação de incentivo à queima de corpos (cremação) com o apoio da Caixa Econômica Federal. O slogan publicitário era: “Vem pra caixinha você também”. Concordo com Cortella e com Javé quando expulsou Adão do paraíso: “Do pó viestes, ao pó retornarás”, diz o capítulo do Gênesis. Infelizmente, Luíza Erundina, prefeita na época, não concordou com Cortella, nem com Javé, e vetou a ação.

Volto ao assunto. E se não fossem os livros? Já que livro está fora de moda, imaginemos então um mundo apenas com... Facebook. Neste momento, caro leitor, você está prestes a desistir de ler meu texto. A palavra Facebook causa sensação de desconforto e hipnose. Imagine quantas coisas há de novo por lá, não?

Espere aí, aguente firme!

Mundo só com Facebook: com um sistema de informação em linha de tempo do qual não há a mínima chance de se absorver coisa alguma de forma profunda. Lemos o anúncio e, de forma inerente ao ser humano, pois somos preguiçosos por natureza, nos satisfazemos com a informação prévia – aquela de, no máximo, 4 ou 5 linhas. As imagens passam apressadas e os links das notícias são inúteis, basta a primeira olhada e pensamos que já sabemos sobre o assunto. Passados 5 minutos, nos esquecemos. O resultado: Cérebros cada vez menos capazes de absorver informação, concluir resultados e discutir ideias. Idiocracia completa. Um mundo de Big Brothers, Parises Hiltons e Ipads por todos os lados.

Graças ao percurso da história e tecnologia precária, não existiam computadores e Newton não tinha Facebook. Não sairia debaixo da árvore nem se uma melancia tivesse caído em sua cabeça.
No mundo só com Facebook não há reflexão. Viveríamos a consequência de uma existência em um ambiente planetário de globalização, de super comunicação, sem termos nada pra falar. Numa troca impossível de ser controlada, que já afeta a todos deliberadamente, de quem dela participa, e de quem se entrega em uma teia alienante sem linha de chegada. “Mostrar histórias mais antigas”, diz a linha do tempo de Zuckerberg.

O pior é que afeta quem anda consciente. É um surto humano, da fragmentação da alma, como os fragmentos da notícia lida e nunca entendida.

Fragmentos de ideia como a que tive para escrever este texto quando acessei o Facebook e deixei de ler o meu livro.
Ricardo Toledo

Um comentário:

P.F. Filipini disse...

A frase: “Livro” vem do verbo “livrar” - tendo como principal objetivo livrar-te da ignorância - é de minha autoria: P.F. Filipini