quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Era uma vez

Em um vilarejo distante, um sábio desejava que as histórias de cada povoado pudessem ser apresentadas e descritas no papel e não apenas contadas de boca em boca. Então, ele resolve reunir os escritores mais talentosos da época, para descobrir quais eram os mais aptos a escrever os acontecimentos em sua pontualidade. Os que tiveram melhor desempenho foram aqueles que perceberam a imediaticidade do mundo enquanto ponto de chegada.
Assim, foram escolhidos cinco contadores de história. Cada um deles recebeu um dom do sábio: humor, carisma, crítica, estilo e arte.
Eram tempos difíceis. O medo estava instalado por toda a parte. Os tubarões voadores estavam soltos. Quando a noite caia, todos se encontravam em casa. As palavras tinham que ser cuidadosamente escolhidas, pois uma frase fora do contexto poderia causar grandes danos. As portas eram trancadas, as janelas fechadas com cadeados. A proposta era usar a inteligência para driblar a tirania que visava à segurança dos povoados.

Porém, nada disso foi desanimador aos jovens, ao contrário, os desafiou e deu motivação. Dessa forma, foram escrevendo em papéis que circulavam pelas aldeias e vilarejos. Há quem diga que chegou até aos grandes reinos. O grupo, que nesta altura já tinha virado uma patota, estabeleceu cumplicidade com os leitores, e os tubarões voadores não poderiam censurar às histórias, porque afinal não tinha nada claramente dito que fosse contra eles, a não ser a crítica e humor expressos nas entrelinhas.
Depois da tempestade sempre vem a calmaria. Os tempos de paz surgiram e o próprio povo teve senso crítico para expulsar os tubarões voadores e requerer um povoado melhor. A sociedade estava toda em harmonia. Os jovens conseguiram mudar um comportamento e essa foi a melhor coisa que aconteceu nos vilarejos depois da feira de rua.
O problema foi que os escritores começaram a se acomodar, e as vaidades vieram à cabeça. Um achava não precisar mais do talento do outro para escrever. A arte era culta demais para o humor, a crítica agradava a todos assim o carisma era dispensável e o humor já era engraçado demais para ter estilo. Logo que o sábio percebeu a guerra de vaidades se alastrando no grupo, ficou furioso, e como castigo, os mandou para o futuro.
Em um tempo aonde a rapidez e a quantidade de informação fizeram as ideologias ficarem obsoletas e perderem sentido. O vazio e a redundância tomaram conta das manifestações artísticas e intelectuais. A sociedade adota uma postura pessimista, com relação às novas criações. Não se esperava a originalidade, esses intelectuais se confundiam com niilistas.
O grande desafio nesse mundo é que os cinco jovens escritores consigam trabalhar em equipe e inovar as histórias. Sair dos discursos tradicionais, e usar todos os dons juntos, para fazer o que atualmente chamamos de jornalismo.
Bianca Queda

3 comentários:

Luciano Bitencourt disse...

Que os quadros a serem pintados tenham seus traços, mas expressem também a arte de viver o próprio tempo.

Crispi. disse...

Isso aí professor!!!
Bom texto, sucesso!

bárbara disse...

Que orgulho!