quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Pura sorte

Camila Albuquerque

Tava prestando atenção no relógio, entre uma e outra notícia ruim na televisão. Sentia o tempo passando na superfície da minha pele como se fossem pelos ouriçados, tocados por uma mão com amor. Antes fosse. O volume da televisão não era mais um barulho estridente e aos poucos as imagens ficaram embaçadas diante dos meus olhos. O meu coração começou a bater forte junto com o ritmo do relógio e meus pensamentos se abafaram em quietude e solidão. Era uma sensação de perda, no caso de mim mesma.

Me perdi entre um jornal e outro e supus que deveria ser algo que acontece com todo mundo, deveria ser então normal. Continuei imersa naquela sensação de gravidade zero e surdez, toquei as almofadas do sofá com as mãos e não as sentia tão pouco as reconhecia. Meus movimentos seguiram em câmera lenta e os lábios da minha mãe pronunciavam alguma coisa, sobre a novela talvez. Eu não a ouvia, o barulho do relógio trincava de forma a estourar meus tímpanos e nem sei dizer o momento certo em que estourou.

Tive flashs de lembranças passadas e senti na ponta da língua o gosto de uma vida que nunca aconteceu. Não consegui diferenciar as minhas memórias de infância com a minha memória recente, não as diferenciei porque não haviam diferenças, nada havia mudado, tudo havia acontecido e eu permaneci estacionada na vaga amarela do terceiro andar, de vidros fechados, ar desligado e mãos tensionadas na chave e no volante. Eu estava só e completamente invisível diante do retrovisor.

Um estalo lá fora e o momento se foi. Durou cerca de uma vida inteira e no relógio se passaram cinco segundos. Cinco segundos sem controle de mim mesma e única vez em que me senti no controle das minhas decisões. Foram cinco segundos de coragem sem pedir opiniões.


Vivemos tão cheios de si que quando levamos uma rasteira parece orquestrada pelo destino - se eu assim acreditasse, como um tapa na cara para retomarmos o bom senso e colarmos os pés no chão. Acredito que os meus sempre estiveram colados, mas em outra época, onde minha realidade era fantasiosa e infantil. Uma vida vivida numa espécie de êxtase que nunca passa, um choque que nunca se resolve e uma conversa que nunca se inicia. Uma vida arrastando fardos passados que só caíram dos meus ombros hoje e, por pura sorte, o meu futuro estava marcado para amanhã.

Imagens: observando.net

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