terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma onda no ar

Juan F. Garces


No dia 17 de maio, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passou o filme Uma Onda no Ar, proposta oferecida pelo projeto  Cine Paredão, que tem como objetivo criar uma discussão sobre arte e cultura, apresentando materiais fora dos padrões pré-estabelecidos. Por esse motivo, as obras mostradas nesse projeto fogem do caráter comercial, optando sempre por um audiovisual alternativo e/ou independente. Então, aproveitando que maio é o mês da abolição da escravidão, o filme veio para discutir essa proposta.

Uma Onda no Ar estreou em 2002 e foi dirigido por Helvecio Ratton, diretor também de outros curtas e longas como: Em nome da Razão (1979), Dança dos Bonecos (1986), Menino Maluquinho (1994), Amor e Cia (1999), O Casamento de Lara (2004), Procissão das Almas (2004), Batismo de Sangue (2006), Pequenas Histórias (2007) e O Mineiro e o Queijo (2011). Ratton nasceu em 1949, na cidade de Divinópolis. Foi militante ativo no movimento estudantil da década de 70, até o momento em que se exilou no Chile. Voltou para o Brasil mais tarde, formando-se em psicologia pela PUC de Minas Gerais.

Notamos algumas influências de sua militância neste filme. Primeiramente, leitor que não está familiarizado com cinema independente, não espere efeitos especiais hollywoodianos e a mesma trama feijão com arroz, pois a proposta do longa está longe de ser essa. O filme conta a história de quatro garotos – Jorge, Brau, Roque e Zequiel – que vivem em uma favela em Belo Horizonte e querem criar uma rádio – Rádio Favela – para representar a voz da comunidade em que eles vivem. Quando conseguem realizar esse sonho, principalmente quando o sucesso da rádio repercute fora da favela, eles começam a encontrar obstáculos, como a repressão policial.

Uma das cenas que me chamou atenção, e também vale para levantar um debate histórico interessante, foi o episódio em que a turma do colégio de Jorge está discutindo sobre a Lei Áurea. Ironicamente, o que os alunos comentam é uma história conservadora, afirmando que a abolição foi justa e que não houve injustiças em relação a outros países, já que o processo foi pacífico. Jorge, um negro, com uma experiência de vida maior em relação a esta questão, discorda do argumento do colega, um garoto branco de classe média.

Após uma grande briga, entra o inspetor na sala – também negro – e pede para o Jorge parar de fazer bagunça, caso contrário, iria expulsá-lo. É interessante perceber algumas discussões que podem ser levantadas nessa cena. Como foi mostrado, o racismo ainda existe no Brasil, mas ele é vedado por um discurso de uma História conservadora que coloca a Princesa Isabel como heroína nacional. Além disso, o preconceito com Jorge por ser morador de uma favela é presente, já que este conseguiu uma bolsa de estudos em uma escola particular pelo fato da mãe ser a faxineira da instituição.

Outro ponto que levanta uma boa discussão é questão da opressão imposta durante a ditadura militar. Quando as ideias da rádio começam a circular fora da Favela a policia tenta, de todas as formas, censurar a rádio. Durante o filme, a rádio é perseguida constantemente pelas autoridades, pois as questões levantadas atingem o governo e o abuso das autoridades. Acredito que esse elemento pode ser um bom ponto para instigar curiosos a pesquisar assuntos que envolvem o período militar. O filme é muito interessante para debater sobre racismo, abolição, assuntos que envolvem diretamente essas questões, como as cotas, além de mostrar um período onde a crítica ao governo e os seus defeitos eram completamente vedados, de qualquer forma.

Esses são os pontos que eu ressaltei, mas, com certeza, o filme é muito rico para levantar outros assuntos. O evento também contribui para isso, já que após a apresentação dos filmes – vale ressaltar que, antes do filme Uma Onda no Ar, foi exibido um curta intitulado No Rastro da Carne (2007) - sempre tem um debate com alguns palestrantes e com a comunidade que assistiu ao filme no local. Para quem gosta de discutir cinema, acho que vale a pena participar do projeto. E para quem perdeu esse, pode vê-lo no youtube. 

Um comentário:

Fernando Schweitzer disse...

Bah, vi esse filme no Festival FAM, anos atrás... É muito bom... E vale ressaltar que perdeu da Ancine a indicação para ser o representante do Oscar, e no lugar devido ao lob e ao pai do diretor fazer parte da mesa de decisão, representou-os lá o filme Central do Brasil.