sexta-feira, 3 de maio de 2013

Elucubrações sobre a volta aos anos 90

Claudia Reis

Li outro dia que as tendências da moda agora estão se voltando às referências dos anos de 1990. Ou seja: teremos, daqui a pouco, blusas, camisas, calças, casacos, saias e outros acessórios em cinza, marrom, azul marinho e preto, a fim de relembrarmos a época do grunge. Claro, sempre tem um toque diferente no revival, que se convenciona adjetivar como moderno ou chic; vai ver foi essa a desculpa que se usou para deixar as ombreiras de fora da moda recente que bebeu dos 80...

Se as cores fluorescentes começam a dar espaço aos tons sóbrios, há outras manifestações artístico-culturais que seguem pelo mesmo caminho. Nesta sexta, 3 de maio, estreia Somos tão Jovens, filme que relata a trajetória da banda Legião Urbana, e no dia 20 está previsto o lançamento de Faroeste Caboclo – que conta a história da música homônima escrita por Renato Russo. Fim de semana passado assisti O Homem do Futuro, de 2011, com Wagner Moura e Alinne Morais, e foi muito curioso dar de cara com referências dos anos 90 – Legião está bombando –, e perceber que agora já são tidas como passado. Ok, é um passado recente, mas já é um passado.


Lembro de uma sexta de 1996, em que fizemos uma festa com o pessoal da facul na casa de um amigo. A festa se estendeu pela madrugada, e no outro dia acordei com uma ressaca enorme e o dever de ir até a universidade pra dar conta de um projeto. Entrei no Gol 1986 à álcool da minha mãe, e enquanto esperava o carro esquentar com o afogador ligado, escutei no rádio que Renato Russo havia partido. Dirigi à faculdade com os olhos ao alto, reparando no verde das montanhas e no azul do céu, e cantando músicas dele – já não recordo se tocavam no aparelho ou se eu fazia versões a capella, mas o que sempre vou ter na memória é que o fim daquela festa foi marcado pelas pessoas deitadas no chão da churrasqueira cantando Legião. Provavelmente Pais e filhos. Provavelmente.

O que eu tenho achado mais legal desse lance de voltar no tempo é poder perceber que, com o passar dos anos, mais os fatos deixam de ser algo que ouvi falar, vi na TV como imagens de arquivo ou li nos livros, e começam a ser algo que eu mesma presenciei. Lembro do Tancredo na salinha de espera do hospital onde ele estava internado, esforçando-se por parecer bem diante das câmeras; do meu pai acompanhar, atento, à transmissão do funeral – será que com o presidente, morria também a recém-conquistada democracia? Assisti aos caras-pintadas manezinhos tomarem a frente da Catedral de Floripa pedindo pelo impeachment de Collor, em 1992. No dia 1° de maio de 1994, um amigo – que depois veio a se tornar meu primeiro namorado - me ligou para lamentar a morte de Aírton Senna.

Então se o revival dos anos 80 resgatou toda uma memória afetiva dos brinquedos e guloseimas daquela época em que a minha geração era criança, agora essas lembranças deixam de ser embaladas em névoa e se tornam nítidas como as imagens da TV de LED.

O que me chama a atenção também, em todo esse processo de se retomar estéticas, é que com o passar dos anos (de novo) mais referências temos das outras décadas. Se nos anos 90 se viajava por duas semanas com um ou dois filmes de 36 poses na mala, hoje qualquer saída rende 100 fotos. Se esse material que vem sendo produzido pelos veículos de comunicação, pelos jornalistas-cidadãos e, claro, por quem habita as mídias sociais não servir de base sólida para negarmos alguns movimentos e resgatarmos outros, pelo menos torna mais acessível – no momento em que tivermos a fim – o nosso revival particular.

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